quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Vida.





Elliott Erwitt
Metropolitan Museum of Art, 1988








 
A Palavra e a Vida são mais curtas que cumpridas.
 
 
Ricardo Álvaro




quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Memórias Perdidas - 4

 
 
 
 
 
 
 
Como todas as «memórias perdidas» de que aqui, de vez em vez, se tem falado estas Memórias de Adrião não valem pela sua qualidade literária; não é esse, de resto, o propósito do livro nem desta rubrica do Malomil. Crónicas de um Aventureiro do Século XX, de Adrião Homem de Sá, foi publicado em Maio de 2006 pela Miosótis – Edição e Distribuição, Lda., Avª Almirante Reis, nº 131 – 6º Dto. No prefácio, o actor Nuno Homem de Sá – filho do autor Adrião Homem de Sá – diz que o livro do pai fala das «aventuras dos jovens de uma certa classe média».
         Falar em «classe média», salvo o devido respeito, parece um déclassement algo forçado, sobretudo se tivermos presente que, logo nas primeiras páginas, Adrião diz que sua mãe era «descendente de família nobre e abastada da Beira Litoral e neta do Visconde de Valdoeiro» e que seu pai era «descendente de família nobre e abastada, uma das mais antigas de Portugal». Mesmo se descontarmos alguma jactância nobiliárquica, não há dúvida de que o jovem Adrião estava longe de ser um produto típico da classe média urbana; em termos de classe, de rendimentos do agregado familiar, talvez fosse da classe média (seja lá isso o que for); no que se refere ao status, esse intangível conceito weberiano, enquadrava-se muito mais num grupo de meninos-família de posses flutuantes, quase sempre minguantes, mas ainda assim cientes do seu estatuto de rapazes estroinas e bem-nascidos.
         Adrião bem nasceu em Lisboa, em 1931. E teve uma infância feliz nas Avenidas Novas da capital, entrecortada por férias estivais em São Martinho do Porto e na Figueira da Foz. Estudou no Colégio Vasco da Gama, mais tarde no Colégio Português de Educação Feminina, enquanto o seu irmão frequentava o Colégio D. Filipa de Vilhena. Caiu de cabeça no Liceu Camões, altura da vida em que fumou o seu primeiro cigarro e fez a sua primeira visita a um bordel. Dos estudos pouco conta, pois pouco contaram para o seu percurso vital. Com o entrar dos anos, Adrião foi ganhando corpo e porte, ambos atléticos. Ginasticado em Carcavelos, rapaz de mar, deu-se a mil e uma actividades físicas, seguindo o modelo de sportsman polivalente e amador, típico da sua época e do seu meio social. Seria forcado, e cábula inveterado. Levou um 6 a Matemática, no Liceu Camões – que, por causa disso, teve de abandonar, crê-se que sem mágoa de espécie alguma. Matriculou-se então no Colégio Académico, aos Anjos, enquanto descobria as artes do salto e da prancha numas férias no Hotel do Luso, recém-inaugurado. Às tantas, de tantas, Adrião virou boémio. O livro percorre, em cadência alucinada, uma sucessão de proezas amorosas e sexuais, contadas com basta gabarolice por este antigo aluno do Instituto Nacional de Educação Física. Também muito clássica, a referência às mulheres estrangeiras e o estereótipo, verdadeiro ou mitológico, de que seriam mais desinibidas – ou «fáceis», no jargão de Adrião – do que as suas congéneres lusitanas que, de capelina, iluminavam a Bénard e a Marques, ao Chiado, ou a Versailles, nas Avenidas Novas. Entre patuscadas e estroinices mil, foi atropelado pela paixão dos carros, não sendo ao acaso que muitos dos amigos de borga de Adrião tenham acabado, como ele, na distinta profissão de vendedores de automóveis. Para isso tinham figura e lábia, impressionando os potenciais compradores e compradoras em stands de novos/usados onde pontificavam estes meninos-bem, todos do Sporting, claro, que iam envelhecendo galãs, com três ou quatro casamentos às costas – mas sem nunca perderem a pose, de artistas.
         Não há nada de especialmente relevante nesta vida, que se viveu apenas. Farras, patuscadas, loucuras mais ou menos inocentes, um mergulho de cabeça na Lisboa boémia, dos cabarets e dos ardinas, dos filmes de Fu Man Chu vistos em cinemas ruidosos, dos tascos abertos até de madrugada. O Parque Mayer, de actrizes e coristas, a Feira Popular mais os seus tirinhos, as sanduíches da Tendinha do Rossio ou do Zé do Quiosque, as entradas à má fila nas recepções das embaixadas, uma ou outra noite terminada na esquadra. O bife do Monte Carlo, noitadas no Maxim’s e no Ritz club, o trivial da boémia. E, suprema pândega, as idas ao estrangeiro, à Espanha vizinha, noitadas no famoso cabaré Pasapoga, Gran Vía, Madrid. «Sempre na pista do feminino», assim se intitula um dos capítulos, que assim resume a juventude de Adrião Homem de Sá, Naturista militante, praticante de caça submarina, fez tropa em Cavalaria, Torres Novas, estudou para piloto em São Jacinto, bon vivant, jogador no Casino, lavador de janelas e mâitre de restaurante em Londres. Esteve na Exposição de Bruxelas, em 1958, correu a Europa de uma ponta à outra, acabando por assentar em Lisboa, empregando-se na firma Guérin, onde começou a lavar carros e terminou em postos de maior responsabilidade, como gerente da oficina da VW, por exemplo. Casou-se, separou-se, recasou-se, teve filhos, diz-se feliz. No meio da borga, uma existência normal, em larga medida previsível, mesmo quando Adrião se gaba, sem excesso de pormenores escabrosos, das hospedeiras da TWA que seduziu ou das mil e uma aventuras amorosas que teve, desde Copenhaga, Dinamarca, ao Hotel Tivoli, Lisboa, passando por Marbella ou Torremolinos. Politicamente, e como também seria de esperar, arrasa o 25 de Abril, a que chama «logro». Não sei se ainda é vivo. Mas que viveu, viveu.
 
António Araújo
 

 

  

À Cabeceira dos que Sofrem, da Revª Madre Catarina de Jesus Cristo.





Quando a vós, enfermeiras, vos pedimos obediência, não vos classificamos, decerto, numa categoria à parte.
Contemplai, de alto abaixo, todas as camadas sociais, e dizei-me se há um único ser que não a obediência atinja? Certamente que não. Obedecer é lei inevitável de toda a criatura humana.
 


terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Relações Humanas, de Evaristo de Vasconcelos.





As emoções devem ser comunicadas, expressas ou descarregadas: caso contrário produzem recalcamentos e endurecimentos que perturbam a personalidade.





Igualdade Radical para a Mulher, de vários autores.











E os Humanos prosseguem vivendo torturados e divididos por outro dilema: amar o amor ou amar sem amor!... Por isso, eles falam tão fácil e insensatamente de «fazer amor»!... O paradigma expresso na primeira parte do dilema – que não é senão uma tautologia alienante – é a segregação directa do amor romântico; o paradigma representado na segunda parte é o resultado da «Dogmática» tradicional que distingue e separa Sexualidade e Amor – quer se confundam amor e Sexualidade de modo a que esta seja tomada apenas genética e economicamente em ordem a «fazer filhos», quer se distingam Sexualidade e Amor de modo a permitir a afirmação do amor místico que pretende, se não repudiar, pelo menos abstrair da Sexualidade.
 
 


segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Lisboa, 1879.

 
 
 
 
Marie-Laetitia de Solms (1831-1902)
 
 
 
         É sobejamente conhecido o célebre livro da princesa Rattazzi, Le Portugal à vol d’oiseau – Le Portugal et les Portugais, saído em Paris em 1879 e com um profundo e polémico impacto no nosso país. A melhor edição dessa obra, com introdução e notas de José M. Justo, foi publicada entre nós em 1997, pela Antígona, sendo dela que se publica este brevíssimo trecho:
 
Mosteiro dos Jerónimos, 1879
 
 
Em testemunho da boa e leal verdade deve fazer-se justiça aos habitantes de Lisboa: o que entre eles há de mais notável não é à sua indústria que o devem, é à natureza que se deleitou em benevolências, que tudo lhes concedeu, entre outras coisas uma admirável, o Tejo, e depois de os acariciar como filhos mimosos da fortuna, recolheu-se ao silêncio do descanso para ver e observar o que eles fariam desses dons privilegiados. Sim, o Tejo é verdadeiramente belo e eu admiro-o com toda a sinceridade da minha alma: não porque o rio possua, como afirmam as liras hiperbólicas dos poetas, ou como talvez possuísse em tempos pré-históricos, as famosas margens floridas, habitualmente cantadas em odes laudatórias; ou ainda porque enrola e desenrola as suas águas puras e transparentes em que se espelha, orgulhoso, o céu azul; mas porque é grande, desafogado, aformoseado de amplos e luminosos horizontes e abriga um dos mais esplêndidos ancoradouros do mundo.
         Subir o Tejo, desde a barra até Lisboa, é um dos espectáculos que valem bem toda uma viagem. É simplesmente maravilhoso! Deixando-se o mar, e salva essa passagem que é a entrada na barra, manobra laboriosa para as embarcações de grande lote em consequência da acumulação e deslocação quotidiana das areias, seguimos rio acima. As margens estreitam-se, a massa de água contém-se sensivelmente num leito de menores proporções, entre a torre de Belém e o Lazareto; depois, conservando sempre na distância de algumas centenas de metros uma largura média, desenvolve-se e dilata-se novamente no centro da própria Lisboa, entre o Arsenal da marinha, na margem direita, e o Barreiro e a Aldeia Galega, na margem esquerda, numa extensão superior a três léguas; ostentando a mais admirável bacia onde quotidianamente dão fundo centenares de navios, e onde todas as armadas e frotas do universo estariam perfeitamente, comodamente, podendo manobrar à vontade sem perigo de abalroamentos.
         Não há espectáculo mais grandioso nem gozo superior ao de aportar a Lisboa, vindo do Alentejo, embarcando no Barreiro, e cortar o Tejo na sua maior amplidão. A cidade abre-se então como um leque aos olhos deslumbrados do touriste, com os seus milhares de casas disseminadas na espalda das colinas e nas cumeadas dos montes.
         (…)
         Lisboa, com os passeios e calcetamentos angulosos, afigura-se-nos um alegrete de cardos e azevinhos simetricamente guarnecido de buxo. Dir-se-ia que houve um prazer especial em reunir todas as pedras pontiagudas ou chanfradas que se encontraram no país para adrede as semear sob os pés dos transeuntes. Alguém me disse: «Quando deixaremos de caminhar sobre escórias de bronze? Onde diabo iria a câmara municipal buscar estes engenhos de tortura e destruição? Não há razão para nos admirarmos que os pés femininos sejam aqui verdadeiros pés de estátuas!»
         Afinal, tudo isto condiz perfeitamente com os estendais de camisas, calças, cobertas de cama, cobertores esfarrapados, saias e outras variedades de trapos pendurados sobre as nossas cabeças na maior parte das ruas, balouçando-se nas janelas ao sabor da viração.
         Muitas ruas, porém, constituem excepção e não oferecem aos transeuntes esses picarescos aspectos. Algumas são verdadeiramente notáveis. Infelizmente, figuram em minoria e como que parecem perdidas no labirinto.
         Os monumentos, as praças públicas, os passeios correspondem ao resto. A cada passo se nos deparam belezas dignas de menção e quase todas devidas à munificência da natureza.
         Os monumentos não abundam em Lisboa e aos estrangeiros que, desembarcando, pedem para os ver, faz-se ouvidos de mercador.
 
Maria Rattazzi   
 
    

domingo, 15 de janeiro de 2017

Lisboa, 1974 (2ª parte)

 
 
 
Lisboa, 1974
Fotografia de Eduardo Gageiro
 
 
 
         Conclui-se hoje a publicação do artigo «Shopping in Lisbon – The Pick of Portugal», da autoria de E. C. Dessewffy. Corresponde a um dos capítulos do guia Fodor’s sobre Portugal, edição de 1974, sendo aqui apresentado numa tradução bárbara e inquestionavelmente descuidada.
 
 
Lisboa, 1974
Avenida dos Estados Unidos da América
Fotografia de Artur Pastor
 
 
Armazéns
         Os armazéns comerciais de Lisboa são uma pálida cópia dos estabelecimentos opulentos que encontramos em Londres, Nova Iorque ou Paris. Ainda assim, melhoraram de forma significativa nos últimos anos. Grandella, que fica entre a Rua do Carmo e a Rua do Ouro, tendo entrada pelas duas ruas, é o mais abrangente, e Ramiro Leão e Paris em Lisboa, lado a lado um do outro, na Rua Garrett, são ambos excelentes para artigos domésticos e tecidos para vestuário. Casa Africana, Rua Augusta 161, tem também esses artigos, bem como uma vasta selecção, a preços acessíveis, de roupa pronto-a-vestir. Lanalgo, Rua Santa Justa 42, e Pollux, Rua dos Fanqueiros 274, são ambos bons armazéns, com uma interessante variedade de artigos. Grandes Armazéns do Chiado, Rua Nova do Almada, é uma das maiores lojas de Lisboa.
 
         Vestuário, pronto-a-vestir e malhas
 
         É possível encontrar modelos originais de Paris e alta costura local em Bobone, Rua Gustavo Matos Sequeira 33, e em Candidinha, Avª da República 23. Outras tentações importadas, ou feitas por medida, podem encontrar-se na Jo Boutique, Rua Serpa Pinto 14, com sucursal na Rua de São Bernardo 70, e em Delfim, Alexandre Herculano 35 (também na Rua Castilho 34), onde existem fatos e vestidos de qualidade. Xanel, Rua do Carmo, tem uma ampla selecção de malhas. Sacoman, no Hotel Estoril Sol, Cascais, tem belos, e caros, vestidos de crochet. Casa Batalha, Rua Nova do Almada, 35: joalharia desde o estilo vitoriano até à moda hippie. Modas, Rua Garrett 29, para vestidos e joalharia.
         Rampa, Largo Rafael Bordalo Pinheiro 15, tem uma selecção soberba de jérseis ingleses e italianos; na cave há uma vasta gama de artigos para presentes. Deve fazer-se uma menção especial à Loja das Meias, na esquina do Rossio com a Rua Augusta, que tem luvas, carteiras de senhora, bem como uma boa selecção de artigos de malha. Nada baratos, mas de grande qualidade, valem bem a visita. Recentemente, o pronto-a-vestir floresceu neste espaço. Ambos os grandes armazéns, Grandella e Grandes Armazéns do Chiado têm uma grande variedade de pronto-a-vestir, sendo o último mais acessível. Apesar de mais caro, uma escolha mais ampla pode encontrar-se em Eduardo Martins, Calçada do Sacramento.
         Sapatos, malas e artigos de pele
         Os artigos de pele e os sapatos são, de um modo geral, de grande qualidade em Portugal. É possível fazer sapatos por medida, com um ligeiro aumento de preço, em todas as boas lojas da Rua Garrett e da Rua do Ouro, bem como da Rua do Carmo. Uma vez que, em média, a mulher portuguesa tem pés pequenos, os sapateiros tendem a fazer sapatos com metade do tamanho requerido, pelo que o comprador deve insistir para que lhe façam calçado na medida exacta. Entre as melhores lojas encontram-se a Mabel, Rua Garrett 44, e, na mesma rua, Onix e Orion, nos números 25 e 42, respectivamente. Ambas têm modelos modernos e de grande qualidade. É muito difícil encontrar grandes tamanhos já feitos, e nenhuma loja tem ainda em consideração, infelizmente, os podes desafortunados que têm pés grandes.
         Das diversas lojas de qualidade para malas e artigos de pele, Mabel, Rua Garrett 44, é a mais popular, enquanto Luvaria Paladini, Rua do Carmo 79, tem uma vasta colecção a preços razoáveis. É também recomendável a Casa Canada, Rua Augusta 232, que tem também belas peles. A melhor loja de todas é Galeão, Rua Augusta 109, com uma maravilhosa escolha de malas e carteiras de mão. Casa de Sibéria, Rua Augusta 254, e Casa das Malhas, Rua do Ouro 180, são ambas boas para pastas e malas em pele de primeira qualidade, bem como para outros adereços para viagens aéreas.
         Coelho, Rua da Conceição 85, é excelente para cintos de couro; podem também fabricar, a preços módicos, cintos noutro material à sua escolha, revestidos a couro.
         Existem lojas dedicadas à venda de luvas, concentradas na Rua do Ouro; há uma excepcional, a Luvaria Costa e Sousa, na Rua Garrett 67, que também oferece malas de mão. Todas as luvarias fazem artigos por medida. As meias são igualmente vendidas em lojas especializadas, a maioria das quais se encontram nas imediações do Largo Bordalo Pinheiro, bem como nos grandes armazéns.
 
         Fábricas
         Todos os armazéns têm uma larga selecção de materiais. Na Rua dos Fanqueiros está cheia de lojas dedicadas exclusivamente a artigos em algodão. Castelo Branco, no número 233, tem artigos com motivos campestres, incluindo os de Alcobaça, indo padrões desde os primórdios do período vitoriano. Têm também os encantadores e muito coloridos lenços de lã ou de algodão que as mulheres portuguesas do campo levam à cabeça. A variedade é deslumbrante, e alguns dos elegantes desenhos de florzinhas bordadas sobre um manto de lã escura são únicos. Na mesma rua, no número 155-157,  J. Marques Lda tem uma oferta enorme de algodões, lãs e sedas.
         Fabrica-se uma vasta gama de sedas artificiais, com padrões alegres e divertidos. Os armazéns têm uma oferta muito grande e Sousa, Rua Garrett 76, é uma boa loja, que por vezes vende padrões que não se encontram noutros lugares. Tatá Rodrigues, Rua Garrett 55, é uma bela loja, com artigos de excelente qualidade. Sopal, Rua Ivens 58, é a loja ideal para artigos irresistíveis em chita, algodão, etc., muitos deles importados da Suíça, ainda que tenham também produtos nacionais; tem igualmente artigos de casa de grande qualidade. No final da Rua Augusta, ao chegar à famosa Praça do Cavalo Negro [Terreiro do Paço], Pinheiros, no número 62, é especializado exclusivamente em têxteis, lãs e algodões, no rés-do-chão, e em sedas e roupa masculina no primeiro andar. É uma loja algo antiquada, mas de inteira confiança, Casa Monteiro, Rua do Ouro 265, primeiro andar, tem uma grande escolha de tweeds, sedas e algodões.
 
 
         Tudo para Homem
         Sendo um país latino, os homens estão bem servidos em Lisboa. Quer o Chiado quer a Baixa tem várias e excelentes lojas masculinas. Lourenço e Santos, na porta ao lado do Hotel Avenida Palace, é indicado para camisas e acessórios. São também afamados Saboia, Rua Garrett 66, e Pestana e Brito, na esquina da Avenida da Liberdade com a Rua M. J. Coelho. Existem outras lojas excelentes na Rua Augusta e na Rua do Ouro. Há também muitos alfaiates, com preços que variam enormemente. Piccadilly, Rua Garrett 69, e José Luís, no Hotel Estoril Sol, em Cascais, são bons, mas descaradamente caros. Gomes dos Santos, Praça dos Restauradores 17, é mais barata e outra loja muito recomendável é Pestana e Brito, que tem também um excelente barbeiro. Gonzales é um excelente alfaiate espanhol, no Estoril, Rua Banco 11.
         Pode comprar calçado masculino nas melhores lojas, como Cinderella, Rua do Carmo 33, e a Sapataria Helio, Rua Augusta 93, que são ambas excelentes e fazem sapatos por medida.

 
         Cabeleireiros e salões de beleza
         Existem numerosos cabeleireiros em Lisboa, ainda que seja por vezes difícil localizá-los, pois raramente ficam no rés-do-chão. Bruna e Renzo, no Largo de São Carlos 8, é um estabelecimento italiano que figura entre os melhores, à semelhança do Antoine, na Avenida de Nice 6, Estoril. Dois outros bons estabelecimentos são Brito e Brito, Avenida da Liberdade 236, e Couto, Avenida João XXI 22, na parte nova de Lisboa. Eva, no Hotel Florida, no Marquês de Pombal, é conhecido pela sua rapidez e eficiência.
         Para tratamentos faciais e de beleza, Luigi & Nogueira, Rua Nova do Almada 36, e Tabot, Avenida A. A. Aguiar 19, são excelentes. Estes salões têm também cabeleireiro.
         Os cosméticos portugueses e os produtos de beleza portugueses são a escolha de muitos visitantes, bem como de muitos locais. Uma das casas mais conhecidas que vende produtos de beleza nacionais é Thaber, Avenida António Serpa 19.
 
 
         Joalharia e prata
         Quer o ouro quer a prata são relativamente baratos e admiravelmente trabalhados em Portugal. Ficará maravilhado com o número de joalharias concentradas na Baixa, e a espantosa variedade dos seus produtos. Sarmento, Rua do Ouro 251, aos pés do Elevador de Santa Justa, tem uma extraordinária selecção de joalharia de todos os tipos; recomenda-se também os trabalhos de filigrana em ouro e prata, muito populares entre os Portugueses. Leitão, Largo do Chiado 20, e Diadema, Rua do Ouro 168, são também lojas muito conhecidas e de confiança. Pedro A. Baptista, nas Galerias Star, Avenida Sidónio Pais 4, tem joalharia arrojada e moderna, bem como antiguidades de primeira qualidade. Ourivesaria da Guia, no edifício do Hotel Mundial, oferece uma vasta escolha de objectos encantadores, o mesmo sucedendo com Ourivesaria Mergulhão, Rua de S. Paulo 162, Santa Filomena, Largo Manuel Emídio da Silva 9c, e Grande Ourivesaria da Moda, Rua da Prata 257. H. Stern, no Hotel Ritz, deslumbra pela sua irresistível colecção de pedras preciosas e semipreciosas e pela sua joalharia.
         Na zona de Cascais, Ourivesaria Marques, Rua Frederico Arouca 64, tem uma vasta oferta de filigrana, medalhas, prataria.
         Finalmente, Maury, Rua do Ouro 202, tem os excepcionais relógios da Suíça, fazendo ainda reparações, caso necessário.


 
         Antiguidades e Mobiliário
         Apesar do caudal de refugiados que afluiu a Lisboa durante a 2ª Guerra Mundial, é muito difícil encontrar pechinchas. No entanto, se estiver disposto a gastar alguns milhares de dólares, conseguirá encontrar um quadro ou um serviço de porcelana a preços mais baixos dos praticados em Londres ou Nova Iorque. Os melhores lugares para a caça às antiguidades são a longa artéria que começa na Rua da Escola Politécnica, onde ao início tem logo um antiquário, bem como no outro lado da Praça do Príncipe Real, quando a mesma rua toma o nome de Rua D. Pedro V; aí existe um grande número de casas de antiguidades, que se prolongam pela Rua da Misericórdia e pela Rua do Alecrim. Esta última tem as mais caras lojas de antiguidades de Lisboa, a par de outras mais modestas. Existe ainda a Rua de São Bento e a Rua de Santa Marta, que têm uma invulgar densidade de estabelecimentos mais humildes.
         Contudo, a outrora famosa feira de antiguidades e velharias de Sintra tem hoje pouco do seu antigo charme despretensioso. Mantém-se a multidão ruidosa e aos encontrões, mas já não há pechinchas nem pequenos tesouros à nossa espera. Todas tendas e lojas estão tristemente comercializadas – e até mesmo objectos vistosos em plástico se exibem sem pudor por toda a parte. Existem ainda várias lojas de antiguidades em Sintra, mas os preços são puxados e lembre-se de que nem tudo o que brilha é ouro!
         Sombra, Av. da República 28, tem mobiliário em bambu para jardins ou terraços, bem como outros objectos para o exterior ou o interior de casa.
         O mercado de velharias de Lisboa é a Feira da Ladra, no Campo de Santa Clara, atrás da Igreja de São Vicente. Realiza-se às terças e sábados, e mesmo que seja difícil encontrar um verdadeiro achado, há vários artigos peculiares e divertidos.
        
 
         Livrarias e Papelarias
         Bertrand, Rua Garrett 73, tem o maior acervo de livros ingleses, norte-americanos e franceses de Lisboa, além de revistas e jornais estrangeiros. Estes últimos também podem ser adquiridos no Cais do Sodré, na estação de comboios para o Estoril, na Tabacaria Britannica e na Tabacaria Inglesa, que se encontram lado a lado na Praça Duque da Terceira 18 e 19, onde pode encontrar o muito informativo Anglo-Portugueses News, o jornal inglês publicado em Portugal para os residentes estrangeiros e para os turistas. Perto daí, a Livraria Anglo-Americana, Rua Bernardino Costa 32, tem um bom acervo de livros ingleses e americanos. Bibliofila, Rua da Misericórdia 102, é boa para livros franceses, e Parceria Pereira, Rua Augusta 52, tem um bom lote de livros estrangeiros, bem como livros em segunda mão e gravuras. Há uma loja onde pode encontrar de tudo, desde uma primeira edição a livros de bolso usados, e chama-se Livraria Barateira, Rua Nova da Trindade 16 A.
         Papelaria Progresso, Rua do Ouro 153, é uma excelente loja de material de escritório, com uma grande variedade de bens, ainda que existam outros estabelecimentos na mesma rua. Papelaria da Moda, no nº 167, é a agente das canetas Parker, e é especializada em canetas de tinta permanente, de grande qualidade e a preços surpreendentemente baixos. Petit Peintre, Rua São Nicolau 104, na esquina com a Rua do Ouro, tem material para artistas e pintores, ainda que a melhor loja seja, sem margem para dúvida, Ferreira, Rua da Rosa 187, vendendo tintas, pincéis, etc., bem como cadernos e estojos de desenho ou cavaletes.


 
 
         Um relance por outras lojas
         Existem muitas lojas de fotografia em Lisboa. As melhores são a Kodak, Rua Garrett 33, Fotocolor, Rua Áurea 291, e Instanta, Rua Nova do Almada 55-57; em todas elas é possível revelar fotografias de forma rápida e eficiente. Na parte nova da cidade, a melhor loja é Foto Latina, Av. João XXI 12 A.
         Para os mais pequenos, Benard, Rua Garrett 84, é uma das melhores lojas de brinquedos da cidade, mas o visitante pode estranhar o preço elevado dos artigos. Mais barata nos preços, mas também com menor qualidade, a secção de brinquedos do Grandella. Na Rua Augusta 264 encontrará uma vasta selecção de brinquedos a preços mais razoáveis. Carochinha, Rua da Prata 94, tem uma maravilhosa colecção de vestidos para festas.
         Existem diversas lojas de discos e aparelhos áudio na Baixa, sendo uma das melhores a Valentina de Carvalho, Rua Nova do Almada 97, com os últimos discos de importação, bem como discos de fado, a canção tradicional portuguesa, que a vedeta local, Amália Rodrigues, tornou famosa em todo o mundo. Discoteca, na Avenida António Augusto de Aguiar 3, tem uma excelente colecção de discos de todos os géneros: uma parte da loja foi transformada num snack-bar onde pode comer alguma coisa ou beber um café enquanto escuta as suas músicas favoritas.
         Arte Sacra, Rua do Crucifixo 88, tem todos os géneros de objectos religiosos, novos e antigos. Têm também uma grande colecção de pintura religiosa.
         Se quiser flores para levar a um jantar, ou para alindar o seu quarto no hotel, existem várias boas lojas: Florista Belo, Rua do Carmo 43, Romeira, Rua Castilho 15, perto do Ritz, Candido Florista, Praça de Londres 5, na parte nova da cidade.
         Se tiver o azar de partir os seus óculos ou de perder uma receita médica, Ramos & Silva, Rua Garrett 65, é uma loja excelente e muito rápida a reparar óculos ou a fazer novos pares.
         Têm crescido como cogumelos a boutiques e as lojas de presentes, especialmente em Cascais, com o Solarium, com uma vasta gama de objectos em pedras semipreciosas, ovos em mármore, etc.; e Peacock, com cintos e lenços, encontrando-se ambas na Rua Francisco Arouca. Catavento, Rua Afonso Sanches, exibe uma electrizante selecção de acessórios masculinos.
         Por fim, de roupas hippies a recordações, passando por literatura, o moderno drugstore Sol a Sol, Avenida da Liberdade 232, alberga um vasto stock de tentações.
 
         E. C. Dessewffy
 
         (Tradução de António Araújo)
 
 

sábado, 14 de janeiro de 2017

Memória de Soares.

 
 
 
 
 
 
 
Sobre Mário Soares já tudo (e de mais, creio eu) foi dito e eu até deveria ter o bom senso de não acrescentar mais nada. Neste momento, ele está no Olimpo (segundo alguns) ou no Inferno (segundo outros). Entretanto, o Jornal, de Fall River, assediou-me quando eu estava na Colômbia com perguntas sobre a vinda dele para um doutoramento honoris causa na Brown (em 1987) e a pedir estórias dos meus encontros com ele.
 
Contei pouco porque de outro modo pareceria estar eu a armar aos cágados. E fiz questão de dizer que não tive nem mérito nem culpa nesse doutoramento concedido pela Brown. O promotor foi o Senador Clairbone Pell, de Rhode Island, ao tempo uma das venerandas figuras do Senado, que tinha um fraquito por Portugal desde os tempos em que o pai fora Ministro dos EUA em Portugal (como antigamente se chamava o embaixador dos EUA). Na altura, Pell era membro da Brown Corporation, o organismo máximo que rege os destinos da universidade.
 
Acrescentarei então apenas duas ou três coisas:
 
Mário Soares deixou a segurança americana (o país anfitrião é que é responsável pela segurança de entidades estrangeiras) completamente desorientada. Ele esquivava-se-lhes constantemente para ir para aqui e para ali. Ao terceiro dia desistiram de todo ao aperceberem-se de que ele não incorria em qualquer perigo e até gostava deveras de misturar-se com as pessoas (emigrantes, já que não falava inglês) com quem se cruzava e ninguém parecia ameaçá-lo.
 
Num domingo, numa noite dessas ainda ocasionalmente frígidas de Maio, terminado o jantar na Casa do Reitor da Universidade, Mário Soares regressou à Gardner House, uma mimosa residência do século XVIII onde costumam ficar os VIP's. A caminhada até lá não era longa, todavia deu para Mário Soares tiritar de frio. Chegado à residência, pediu wiskey para aquecer. Ora whiskey na Gardner House é água no Sahara. Era imperativo desenrascar-me.
 
O problema era ser domingo e a lei seca, em vigor na altura em Rhode Island, não permitir a venda de bebidas alcoólicas nas lojas. Como desenrascar a situação? Lembrei-me de ir ao Andréas, um restaurante grego com um dono amigo de há muitos anos. Expliquei-lhe a situação e perguntei-lhe se não me vendia uma garrafa. Vender? Agarrou em duas e pôs-me a andar com um grande abraço grego para o Senhor Presidente de Portugal.
 
Onésimo Teotónio de Almeida