terça-feira, 27 de setembro de 2016

Atenas e Roma.

 



 
 


 
As cidades de Atenas e Roma na formação da civilização europeia:
mito, cultura e política
 
 
 
Nos Europaei”.
Francis Bacon (1561-1626), 1623
 
 
 
1.     A Europa como mito
 
“Étranger, ce taureau qu’au sein des mers profondes
D’un pied léger et sûr tu vois feindre les ondes (…)
Il nage aux bords crétois. Une jeune beauté
Dont le vent fait voler l’écharpe obéissante
Sur ses flancs est assise, et d’une main tremblante
Tient sa corne d’ivoire et, les pleurs  dans les yeux,
Apelle ses parents, ses compagnons de jeux (..)
L’art a rendu l’airain fluide et frémissant,
Ce taureau, c’est un dieu: c’est Jupiter lui-même.”
André Chénier, “Sur un groupe de Jupiter et d’Europe”.
 
 
A Europa, como mito, pertence à lenda grega de uma princesa fenícia, uma mulher de cabelos doirados, filha de Agenor, rei de Tiro, na costa de Sídon, onde é hoje o Líbano. A princesa Europa passeava junto ao mar com algumas amigas, quando Zeus, o rei dos deuses da mitologia prega, a viu, apaixonando-se por ela, e de imediato se transformou num touro de imaculada brancura. Vindo a jovem acariciá-lo, acabaria por trepar para a sua garupa, aproveitando o animal o ensejo para a raptar, levando-a às costas para a ilha de Creta através do curto espaço do mar que separava a Fenícia da Grécia. Chegados a Creta, Zeus retomou a sua forma humana e uniu-se à princesa raptada, donde nasceram três filhos, Minos, Radamanto e Sarpeidon. Minos, rei de Creta, casaria com Pasifé (Pasiphae), que se apaixonou por um touro, que aliás não lhe retribuía a paixão, o que levou a rainha adúltera a disfarçar-se de bezerra para se poder unir ao animal, acasalamento contra natura de que resultou o nascimento dum monstro sanguinário, o Minotauro. Este teve de ser encerrado, a pedido de Minos num edifício sem saída, o labirinto inventado pelo arquitecto Dédalo, exigindo a besta de cabeça taurina e corpo humano sete raparigas e sete rapazes de Atenas, como tributo anual. Para o matar, Teseu, filho de Egeu, rei de Atenas, aceitou ser um dos jovens sacrificados ao Minotauro, embora precavendo-se com um fio dado por Ariana, estratagema que lhe permitiu sair da prisão labiríntica, depois de matar o Minotauro.
Não deixa de ser curioso esta relação tão íntima da vida cretense com a raça taurina, desde os murais do palácio onde vemos mulheres que saltam por cima de touros bravos. Note-se, de passagem, que alguma da mitologia grega gira em torno da ilha de Creta, famosa desde a idade do bronze da civilização minóica, estudada por Sir Arthur Evans em Cnossos, nos começos do séc. XX, pois sãos diversos os mitos em torno de Minos, do labirinto e do monstro Minotauro – do seu arquitecto Dédalo e do seu filho Ícaro, que escaparam ambos daquele envergando asas. Todavia, Ícaro, filho do “grande arquitecto” (Os Lusíadas,  canto IV, 104), voaria tão alto que o sol derreteu a cera que unia as asas, provocando a sua caída e morte no mar icariano.[1]
Quanto ao mito do rapto da princesa fenícia Europa, ele foi objecto de infindáveis tratamentos nas artes e nas letras, desde os poemas Metamorfoses de Ovídio, André Chénier e Leconte de Lisle aos  frescos de Pompeia e aos óleos de Martin de Vos, Rubens, Ticiano, Rembrandt, Boucher e Moreau, e ainda à ópera de Milhaud L’Enlèvement d’Europe.
Em suma, a princesa fenícia acabaria por dar o seu nome, antes de mais, à Grécia e, depois, a todo um continente que iria do Bósforo ao Atlântico, do Cabo Norte ao Cabo de São Vicente, assim como o seu raptor designaria no céu a constelação do Touro. Quanto à Grécia, esta, na sua parte continental, foi sempre considerada como sendo a Europa, embora fosse tomada também como a parte ocidental da Ásia Menor (ou Médio Oriente), até porque, como o sublinha o estudioso Richard Buxton,[2]  a primitiva mitologia helénica fazia pouca distinção inicial entre “Gregos” e “Bárbaros”, até que as guerras com os persas, no séc.V, modificariam essa atitude, como mais adiante veremos. Quanto às nem sempre fixas fronteiras tradicionais entre a Europa e a Ásia, esses dois dos cinco continente da terra incluíam, para leste do Bósforo, as regiões eslavas até ao rio Don. Ao longo do séc.XV o continente europeu alargaria a sua extensão até às margens do Volga ou às montanhas dos Urais. Neste sentido, a Rússia tem sido entendida sobretudo como um país asiático, como também havemos de referir adiante.

 


 
 
2.     Os “Barbaroi”
 
Convém recordar que, para os Gregos, os povos a leste do território helénico, contra os quais tantas guerras travaram, sobretudo contra os Persas, povo indo-europeu instalado desde o século VIII a.C. a norte do golfo Pérsico, eram bárbaros (barbaroi), o que dava a esses orientais uma dimensão claramente negativa, como sendo inimigos desprovidos de verdadeira civilização, e que tinham falhado as várias tentativas de submeterem os helenos nas Guerras médicas, no tempo de Dario I (século V a.C.), embora tivessem conseguido anexar todas as cidades gregas da Ásia, no território da actual Turquia. Contudo, esta permanente ameaça dos persas desfez-se para os Gregos com as vitórias de Salamina (480 a.C.) e com as conquistas de Alexandre o Grande (século IV a.C.) que conseguiu aniquilar o império persa, a que se seguiria, algum tempo volvido, a ocupação do seu território pelos romanos. Para os gregos, eram barbaroi não só os persas mas todos os povos orientais cuja língua lhes parecia incompreensível, como os egípcios, os caldeus, bem como os romanos.
Todavia, na sua peça Os Persas (472 a.C.), Ésquilo mostrava o desastre persa em Salamina, em 476 a.C., na qual os gregos derrotaram Xerxes, cuja grande frota foi desbaratada nessa batalha decisiva. A peça não era, porém, feita contra os vencidos, mas contra a hybris (desmedida) de Dario, vencido pelos gregos na batalha de Maratona (490 a.C.), verdadeiro responsável por uma política agressiva que conduzira ao descalabro do poderio aqueménida, servindo sobretudo, para o público helénico, como uma lição moral, pondo-o em guarda contra a tirania, ao mesmo tempo que nas palavras do coro persa ressoavam acentos dolorosos para exprimir a dor dos vencidos. Com o posterior domínio do mundo mediterrânico pelos romanos – que os gregos tinham considerado também como bárbaros –, o termo perdeu o seu carácter xenófobo para designar, agora, os povos que não participavam na Romanitas. Note-se que, para os romanos, os germânicos que invadiriam o império no seu final tinham olhos azuis que os impressionavam como funestos, pois a cor cerúlea (azul do céu) lhes era desagradável e tida como aziaga. Foi preciso uma mudança cultural das simpatias cromáticas ocidentais, durante a Idade Média cristã, para que o azul ganhasse valor e dignidade, figurando essa cor no manto de Nossa Senhora.[3]

 
 

 
3. A Europa livre e a Ásia despótica
 
No século das Luzes, o pensador francês Montesquieu (1689-1755), autor das Cartas persas e do tratado de política De l´Esprit des Lois (1748), tipificava os regimes políticos em três formas, a Monarquia, a República a o Despotismo, fazendo-os depender, respectivamente, da honra, da virtude e do medo, considerando que ao último sistema pertenciam os impérios asiáticos, como o persa, o chinês, o indiano e o japonês, em suma, a países da Ásia, já que todos esses regimes eram essencialmente despóticos, ou seja, baseados no medo. Quanto à República (livro II, cap. II e livro III, cap. III), fundava-se esta numa organização igualitária das relações entre os membros da colectividade, ou seja, na qual o povo em corpo ou em parte dele tinha o poder soberano, não significando isso que nela todos os homens seriam virtuosos, mas que podiam sê-lo. Já a monarquia se baseava na diferenciação e na desigualdade, na “honra”(livro  III, cap.V II), pois só um governa e tem o poder soberano, enquanto o despotismo asiático, sendo a lei sem regra, em que a igualdade só se estabelecia no medo (L’Esprit des Lois, livro II, cap. I e livro III, cap. IX). O governo republicano, acrescentava, podia assumir duas formas diferentes, a democracia e a aristocracia.
Estas considerações do grande pensador político da Gironda marcaria de forma muito clara – e na sequência das convicções reflexivas tantos dos gregos como dos romanos –  a noção de que a Europa seria o continente onde não existiam regimes fundados no medo, o que levava o filósofo iluminista a declarar que “a constituição de Roma e a de Atenas eram muito  sensatas (sages)”, considerando ainda que seria “ainda uma lei fundamental da democracia que só o povo faça leis”(livro II, cap. II). Já Hobbes, no século anterior, achava que o medo era o sentimento humano político mais natural, sendo o Estado – ou o Leviatã como lhe chamava, com inspiração bíblica - formado com base nele. Todavia, Montesquieu, não sendo pessimista como o era o teorizador político inglês, tinha uma convicção liberal arreigadamente europeísta, pensando que o despotismo era intrinsecamente asiático – convicção que nós europeus, hoje ainda, facilmente aceitamos, pensando sobretudo, por exemplo, na passagem do antigo Leviatã czarista para a actual Rússia de Putin, ou nas sete décadas de regime ditatorial soviético[4] –, assim como, na sua teorização sobre a influência do clima nas formas de governo, insistia que o poderio asiático, ligado por natureza aos grandes impérios, “deve ser sempre despótico na Ásia”, enquanto que, na Europa, a medíocre extensão dos seus estados formara nelas um “génio da liberdade que torna cada parte muito difícil de ser subjugada e submetida a uma potência estrangeira”. E concluía que “reina na Ásia um espírito de servidão que nunca a abandonou”(…), não sendo possível encontrar uma só característica que marque uma alma livre: ali só se verá o heroísmo da servidão.” (livro XVII, cap. 7).
Se pensarmos no destino histórico da Rússia, desde o primeiro czar, Ivan, o Terrível (1530-1584) – que nos custa crer que foi contemporâneo da rainha Isabel I da Inglaterra (1533-1603) – até ao derradeiro dos czares, Nicolau II, assassinado em 16/17-VII-1918, passando pela queda da realeza e a efémera revolução democrática chefiada por Kerensky (1881-1971)[5] e a instauração da ditadura bolchevista (Outubro/Novembro de 1917), durante a qual Lenine mandou executar o czar e fechou a duma, instaurando um regime que, sobretudo a partir de Estaline (falecido em 1953), levaria ao apogeu o sistema despótico soviético que só teve equivalente na dureza e inclemência dos métodos de terror utilizado e de genocídios cometidos, nos anos 30-40, ao de Hitler na Alemanha do Reich milenar que só duraria doze anos.[6] Um punhado de grandes escritores russos dessa época sombria – Zamiatin, Platonov, Bulgakov, Vassili Grossman, Siniavsky,[7] Soljenitsine, Pasternak – deixaria desse verdadeiro Behemoth russo os depoimentos mais impressionantes do que foi a dolorosa passagem da Utopia bolchevista à atroz Distopia soviética, com os seu Gulag e as suas arbitrariedades sob as formas mais implacáveis de um regime despótico, não podemos deixar de observar que, mesmo quando este chegou ao fim, em 1991, com Gorbatchev, não se instaurou ali a democracia num país que jamais a conhecera em séculos da sua existência histórica, antes se resvalou para a restauração dos métodos que tinham caracterizado os despotismos anteriores, desse os czares a um antigo funcionário dos serviços da KGB, a omnipotente polícia política, Vladimir Putin. Em suma, não se pode deixar de evocar o liberal Montesquieu quando comparamos os regimes europeus e os asiáticos.
 


 


 
4. A invenção da Democracia ou a Grécia como primeiro grande contributo para a civilização europeia
 
A Europa, entendida como uma específica formação histórico-cultural, assim como civilização política e institucional, tem, antes de mais, como pólos duas grandes cidades territorialmente expansivas e colonizadoras que foram, também, duas formas de estado, acabando uma delas, a do império romano, por gerar a primeira configuração da Europa como um todo continental e de governação político-jurídica. Roma foi, assim, o primeiro império realmente europeu, progressivamente alargado do Próximo Oriente às costas do oceano atlântico, as ilhas britânicas e uma parte da Germânia, fazendo do Mediterrâneo o mare nostrum (também designado poro mare internum) ao longo do qual, foi estabelecendo o seu poderio e o uso do latim, fonte de diversas línguas novilatinas, entre as quais aquela que o poeta brasileiro Olavo Bilac evocava como a “última flor do Lácio”, o português.
Nessa nebulosa histórica, a Grécia surge como um preâmbulo da futura civilização europeia, sobretudo graças à invenção que nela se fez do regime democrático que, alguns séculos mais tarde, seria o cimento essencial do poder numa Europa unida. Convém, pois, começar por referir a invenção grega da democracia (demokratia) – palavra que não figura nos dicionários de Latim – como um dos elementos fundamentais da civilização da Hélade para a afirmação dum fortíssimo e essencial veio europeu a que podemos dar o nome de greco-romano, sobretudo se atendermos que Roma, no seu desenvolvimento como potência imperial, sobretudo depois de ter derrotado Cartago nas guerras púnicas (sécs.I-II a.C.), que dominara o comércio do Mediterrâneo durante séculos, se afirmou como a grande e duradoura potência unificadora do espaço europeu.[8]
 Roma, ao integrar Atenas e o seu património político e cultural na sua realidade, fez dos atenienses um dos elementos fundamentais da herança que a Europa moderna acolheria como basilares da sua genética. Das três variantes históricas da Grécia – a Grécia arcaica (ou Grécia antiga, do século VIII a.C. ao fim do séc.VI a.C.), a Grécia clássica (que se estende do século V a.C. ao fim das Guerras Médicas, em 479 a.C., e que corresponde ao apogeu da civilização grega) e a Grécia helenística (que vai do século IV a.C. à conquista romana do reinos helenísticos saídos do império de Alexandre o Grande, no século I a.C.) –, o período que mais nos interessa é a Atenas do tempo de Péricles (século V a.C.), com a sua capital situada na Ática, em cuja Acrópole (cidade alta) Fídias foi o escultor principal do Parténon, assim como da monumental estátua da deusa Atena e os grandes dramaturgos Sófocles, Ésquilo e Eurípedes escreveram as suas peças, cidade rodeada de montanhas e adversária de Esparta tanto como dos Persas com os quais travou guerras incessantes e, ao final, vitoriosas para os gregos, desde Maratona a Salamina.
A Grécia foi dominada por uma poderosa aristocracia desde a tirania moderada de Pisístrato (600-527 a.C.), que ensaiou a primeira democracia social, ao mesmo tempo que iniciava a expansão helénica. Mas foram as reformas de Clístenes (508 a.C.) que de facto estabeleceram a democracia, ainda que esta se mantivesse sempre bastante limitada: havia apenas 1/12 de cidadãos activos na Atenas do século V a.C. no meio de 200.000 escravos e 70.000 estrangeiros desprovidos de quaisquer direitos políticos. Nos séculos VII e VI a.C., Dracon, Sólon, Pisístrato e Clístenes tornaram o regime democrático na Grécia uma realidade. Nesse período de apogeu ateniense, que duraria até à conquista macedónica, o governo de Péricles (492-429 a.C.) levaria esse sistema democrático ao seu auge, atingindo Atenas a hegemonia como cidade-estado dominante da Hélade, assim como com o máximo do seu poderio económico e militar, eliminando os persas do mar Egeu e implantando colónias helénicas no território da actual Turquia (uma delas fora Tróia, ou Ilion, hoje Hissarlik – que significa fortaleza –, a 6 km do Helesponto (Dardanelos), cujos vestígios  o alemão  Heinrich Schliemann (1822-1890) [9] escavaria no século XIX, descobrindo desde 1871 nove camadas arqueológicas sobrepostas, sendo uma delas a da cidade devastada cerca de 1184 a.C. – data fixada por Eratóstenes para a queda de Tróia, quando se supõe que esta teria ocorrido durante o sécs.XII ou XIII, urbe que Homero (séc. VIII a.C.) cantara na Ilíada, narrando na Odisseia o regresso ao lar, em Ítaca, de Ulisses, o astuto grego que ajudara a conquistar a cidade através do famoso estratagema do cavalo de pau, um  dos poemas lendários que, como veremos adiante, serviria a Virgílio para filiar a romanidade do império de Augusto num grupo de fugitivos da famosa cidade cercada e tomada por causa do rapto de Helena, mulher de Menelau, rei de Micenas, raptada por Páris, o filho de Príamo, rei troiano.
Com a democracia grega, os cidadãos eram todos iguais diante da lei – termo designando pela palavra isonomia –, completada pela isotimia (acesso de todos às funções públicas, conferidas não segundo o nascimento mas por eleição ou sorteio) e idegoria (direito de todos à palavra diante dos tribunais e assembleia do povo. Esse sistema politico democrático, que teve o seu auge no do século V a.C., era, desse modo, a primeira forma histórica de uma democracia directa, ainda que nem todos os habitantes de Atenas participassem nele, já que as mulheres, os escravos e os estrangeiros residentes (metecos) estavam excluídos desses direitos nas leis escritas feitas para as pequenas cidades. Este sistema democrático que regia a polis grega estava concebido para cidades pequenas (como mais tarde sucederia com a democracia helvética dos tempos modernos, estabelecida e reconhecida desde 1499). Além disso, a democracia ateniense custava caro, já que era preciso pagar, desde Péricles, os salários indemnizações de presença na assembleia popular (a eccclesia), a qual tudo decidia, tanto a guerra como a paz, votando o orçamento, julgando os crimes de Estado e formando um tribunal para muitos outros crimes, além de eleger estrategos (chefes militares) e tesoureiros, sendo as suas sentenças sem apelo. 
A existência da escravatura era, deste modo, essencial o funcionamento deste sistema democrático helénico, na medida em que só assim os homens livres se permitiam consagrar-se à vida pública. Péricles fez mesmo votar leis limitando o número de cidadãos, donde resultou que em 400.000 habitantes, na Ática, só 40.000 fossem verdadeiros cidadãos masculinos e adultos, dos quais só uns 5 a 6.000 tinham assento nas assembleias do povo. As grandes obras artísticas públicas no tempo de Péricles - como a construção do magnífico Parténon na Acrópole de Atenas, com o seu friso de figuras e cavalos de estilo dórico, esculpido por Fídias em mármore pentélico[10], e as festas organizadas para agradar ao povo, o que fazia o regime democrático depender do financiamento que lhe era assegurado pelos aliados de Atenas (a Confederação ateniense ou de Delos) –, pelo que a democracia grega foi perdendo apoio. Em suma, a democracia ateniense foi sobretudo o governo de uma minoria, dum demos de alguns milhares de cidadãos livres, mas na qual uma classe de escravos e aliados mais ou menos submissos não participava, o que permitia oferecer-se um grande nível artístico e o luxo de se governar a si mesma. E jamais a democracia ateniense considerou estabelecer a igualdade entre todos os homens ou entre todas as cidades.
 
(continua)
 
João Medina





[1] Camões incluiria, na fala amargamente profética do Velho do Restelo (Lusíadas, IV, 94 e ss), ao considerar que a nossa aventura marítima se comparava ao voo fatal de Ícaro.
 
[2] Veja-se  Richard Buxton, The Complete World of Greek Mythology, Londres, Thames & Hudson, 2007, ilustr., p.98. Esta obra é excepcional como tratado de mitologia e ainda pela alta qualidade das suas ilustrações. Buxton sublinha a importância do sexo no comportamento do deuses gregos, dizendo que “um dos mais impressionantes modos nos quais terrível poder dos deuses se exprimiu através do sexo” (p.94), dando exemplos das muitas formas dessa verdadeira pan-sexualidade mitológica (pp.94-101), sem esquecer a homossexualidade do próprio Zeus, apaixonado por Ganimedes, jovem príncipe troiano, a ponto de, transformado em águia, o raptar, levando-o para o no Olimpo e fazendo dele o copeiro dos deuses, o que lhe garantia a imortalidade e a juventude eterna (pp.99-100)..
[3] Sobre a história das cores, veja-se a obra inovadora de Michel Pastoreau, entrevistado por Dominique Simonnet, Paris, Éditions du Panama, 2014, maxime pp.14-26 (o azul).
[4] Vide:–Hélène Carrère d’Encausse, La Russie inachevée, Paris, Fayard, 2000. -La Russie des Tsars. D’Ivan le Terrible à Vladimir Poutine, dir. de Emmanuel Hecht, Paris, Perrin, 2016, maxime pp.391-413 (Putine). -Vladimir Fedorovski, De Raspoutine à Poutine, Les Hommes d l’Ombre, Paris, Perrin, 2001.
[5] Veja-se o testemunho de Alexandre Kerenski (1881-1970) no seu livro La Russie au Tournant de l’Histoire, Paris, Plon, 1967, e 447-584 (queda do governo de Kerternski e tomada do poder pelos bolchevistas).
[6] Veja-se o Dictionnaire du Communisme dirigido por Stéphane Courtois, Paris, Larousse, 2007, ilustr. com fotos e mapas, maxime pp.338-349 (Lenine e o leninismo) e 529 -544 (Estaline)..
[7] Sobre estes dois importantes romancistas russos, veja-se o estudo que lhes dedicámos no nosso livro  Auschwitz e Moscovo. O Silêncio de Deus em Auschwitz, Lisboa, Caleidoscópio, 2006, ilustr., maxime pp.83-103 (Grossman) e 109-121 (Siniavsky).
[8] Veja-se a obra fundamental de Paul Veyne L’Empire gréco-romain, Paris, Le Grand Livre du Mois, 2005, ilustr., maxime pp.163-257 (a  identidade grega contra e com Roma, “colaboração” e vocação superior).
[9] Vejam-se os seguintes estudos: -David A. Traill, Schliemann’s of Troy: Treasure and Deceit,  Nova Iorque, St.-Martins, 1996, ilustr.. -Catherine Moorehead, Lost and Found. The 9.000 Treasures of Troy. Heinrich Schliemann and the Gold that got away, Nova Iorque, Viking, 1996. Sobre a Guerra de Tróia ver: - Quinto de Esmirna, The War of Troy. What Homer didn’t tell, trad. e notas de Frederick M. Combellack. Nova Iorque, Barnes and Noble, 1996. -Moses I. Finley, On a perdu la Guerre de Troie, Paris, Les Belles Lettres, 1995. – Stéphane Foucart, La Guerre de Troie a-t-elle eu Lieu? Enquête sur un Mythe, Paris, La Librairie Vuibert, 2014.
[10] O Parténon seria comprado ao governo turco em 1801-2 por Lord Elgin, embaixador inglês na Turquia, e transportado nas sua quase totalidade, para o British Museum, em Londres, o que indignou Lord Byron, que lhe vibrou uma violenta crítica no seu poema Childe Harold’s Pilgrimage, de 1812 (recorde-se que o poeta inglês morreria em 1824, perto de Missolonghi, combatendo pela libertação da Grécia das mãos do império otomano). Veja-se a obra de Roderick Bewton, Byron’s War. Romantic Rebellion, Greek Revoluition, Cambridge, N.Iorque, Cambridge Universitry Press, 2013, maxime pp.211-263 (os cem dias de Byron em Missolonghi, onde morreria), ilustr. com mapas e imagens, 

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Lisboa, 1956.

 
 
 









 

Lisboa, 1972.


 
 
Portugal
Fotografias de Neal Slavin

           
 
 
         Infelizmente, mas a culpa é minha, encontrei poucas informações sobre Max Wery, embaixador belga em Lisboa desde o marcelismo até um período já bem adiantado da nossa democracia. Socorro-me, pois, do prefácio que José Medeiros Ferreira escreveu para a obra daquele diplomata, E Assim Murcharam os Cravos, publicada entre nós pela Editorial Fragmentos, em 1994, com tradução de Regina Louro. Antigo resistente na 2ª Guerra, após a libertação da Bélgica Max Wery ocupará, com dois colegas, o edifício do Ministério dos Assuntos Exteriores, na rue de la Loi, em Bruxelas, em 3 de Setembro de 1945. Antes estivera nesse Ministério de 1936 a 1940, tendo pertencido ao gabinete do ministro socialista Paul-Henri Spaak. No final da carreira, a colocação em Lisboa afigurava-se o prenúncio de uma reforma tranquila. Mas, subitamente, uma revolução eclode em Lisboa. Max Wery acompanha-a de perto, ou tão perto quanto as circunstâncias do tempo – e a sua qualidade de representante diplomático de um país estrangeiro – deixaram. O seu livro estende-se pelo período revolucionário e vai mais adiante, até à presidência de Ramalho Eanes e aos primeiros passos da adesão às Comunidades. Escolheu-se um trecho anterior ao 25 de Abril pelo que ele nos apresenta, desde logo, como «retrato turístico» de Lisboa. Em quase todos os testemunhos de estrangeiros sobre Portugal repetem-se os mesmos clichés e lugares-comuns, quase se podendo dizer que existe uma espécie de vulgata de impressões e sensações despertadas pelo cheiro a sardinha ou a contemplação dos Jerónimos. Porém, o olhar de Wery é mais fino e penetrante. Dá-nos uma visão assaz curiosa do que era o Portugal na agonia do regime. Concorde-se ou não com o teor das observações do embaixador da Bélgica, não se pode negar que tentou compreender o país onde estava – e isso, por si só, justificaria a publicação deste extracto de E Assim Murcharam os Cravos.
 
 
 
 
 

 
 
Cheguei à capital portuguesa em Novembro de 1972. Nesse ano, o mês de Dezembro foi excepcionalmente inclemente e, para nosso grande desapontamento, fomos, minha mulher e eu, acolhidos por violentas rajadas de vento selvagem que, soprando do mar, arrastavam furiosamente nuvens escuras e densas que desabavam em chuvas torrenciais. Estávamos um pouco surpreendidos com o mau tempo, fora do habitual, é verdade, e compreendemos então o sentido de uma frase tantas vezes ouvida durante as emissões de televisão: “Um anticiclone, proveniente dos Açores, determina o tempo nestas regiões.” Custava-nos acreditar que, passadas umas semanas, as amendoeiras e as mimosas estariam em plena floração. Decerto o clima de Portugal não é rigoroso, longe disso; é bem conhecido o seu céu azul, sob um sol generoso. Pode fazer calor, muito calor, até, mas com uma particularidade importante e feliz: o vento que, pela canícula, refresca, ao fim da tarde, a atmosfera sufocante do dia.
         Como Roma, Lisboa foi construída sobre sete colinas cujas ruas e ruelas se conciliaram ao relevo. Neste aspecto, a cidade é cansativa, pois todas as artérias são a subir e a descer, o que torna difíceis os passeios pedestres, tanto mais que o piso se encontra em mau estado, tornando-se intransitável; os pavimentos estão distribuídos muito desigualmente e não oferecem, tal como os passeios, uma superfície uniforme sobre a qual, outra nota pitoresca, se movimentam a custo as carruagens rangentes e ofegantes de um eléctrico de outra era e rolam autocarros de imperial, vindos de Londres, demasiado altos para a estreiteza das ruas. E, contudo, que estranho encanto esta cidade emana! Quer a olhemos de cima, a bordo de um avião ou das muralhas do Castelo de S. Jorge, quer a contemplemos de baixo, das margens do Tejo, a cidade, harmoniosamente disposta em andares, apresenta um aspecto colorido, pontuado pelas tonalidades multicolores das casas, literalmente agarradas aos flancos das encostas. O encanto cativa-nos desde a descoberta, ao acaso das caminhadas, das vielas e becos da cidade antiga; prende-nos quando visitamos os bairros populares do Rossio ou de Alfama, sobre os quais flutua o cheiro delicioso da sardinha assada e paira a sombra imensa de Santo António de Pádua, menino querido de Lisboa e deste bairro onde nasceu. Nas ruelas estreitas, as casas, desde as varandas e janelas até quase aos telhados, enfeitam-se, quase todos os dias, em todos os andares, de roupa acabada de lavar, a balouçar ao vento, como estandartes multicolores cujos tons claros contrastam intensamente com os matizes desbotados das fachadas que o tempo e a falta de manutenção sujaram irremediavelmente. As lavadeiras de Portugal ainda não pertencem à lenda. Maravilha, também, errar por certas ruas, bordejadas de buganvílias de tom malva, vermelho ou laranja, muralhas que escondem e protegem ciosamente dos olhares indiscretos velhas casa de estilo árabe e velhos palácios austeros e imponentes, vestígios de um passado que teve a sua grandeza. Pois o encanto indefinível de Lisboa vem também – diria mesmo que vem, sobretudo – do seu passado. A cidade recorda-se de ter sido, durante vários séculos, o centro e a capital de um imenso império, que não esqueceu no seu entorpecimento posterior e de que conserva uma profunda nostalgia.
         Este sentimento de grandeza e de saudade melancólica do passado perpetua-se até aos dias de hoje. Deambulem à beira do Tejo, ali onde se ergue a Torre de Belém: de pés na água, ela parece continuar a espreitar o regresso das pesadas caravelas, sobrecarregadas de seda e especiarias, fontes de riqueza e opulência para Lisboa. Tal abundância encontra-se materializada e comprovada no Mosteiro dos Jerónimos, com o seu claustro e a sua igreja, situado quase em frente da Torre de Belém e que provoca a admiração pelo carácter tipicamente português, a arte manuelina, cuja pureza e delicadeza envolvem quer as âncoras e cordames – coisas do mar – como as cruzes de Cristo e as flores, de ornatos artisticamente cinzelados. Quanto à Praça do Comércio, uma das mais belas praças do mundo, oferece aos olhos maravilhados a vastidão da sua superfície, a unidade de estilo dos palácios que a rodeiam e a harmonia perfeita das suas proporções.
         Trégua de romantismo obsoleto. Voltemos à realidade. Como encontrei Lisboa no final do ano de 1972?
         A cidade estava limpa, ordenada e viva. A vida quotidiana desenrolava-se normalmente. As lojas estavam bem abastecidas; era possível encontrar, a preços normais, toda a gama de produtos importados. As pessoas ocupavam-se tranquilamente das suas tarefas habituais. Em resumo, ainda se vivia com conforto. Só o preço das rendas de imóveis e de apartamentos era exorbitante. A construção de uma casa individual ou de um edifício de vários andares ficava muito cara, apesar dos salários módicos dos operários e dos preços absolutamente normais dos materiais de construção. Era o indicador certo de uma especulação anormal sobre os terrenos para construção, nas mãos de promotores cúpidos.
 
 
 
   
 
      Para um país em guerra, via-se muito poucos soldados em uniforme nas ruas. Quanto ao aparelho policial, não era mais visível que o dos nossos países democráticos. É verdade que os polícias à paisana, muito numerosos, não podiam ser detectados. Mas saltava à vista que os polícias fardados pareciam mais arrogantes do que noutros lugares. Os abusos de poder eram moeda corrente, a corrupção grassava. Na realidade, a corporação policial encontrava-se acima da lei, para grande fúria da gente do povo, cuja única arma de defesa era a manha, a astúcia, a desobediência e a fuga. Na vida de todos os dias, no cabeleireiro, nas ruas, os clientes e passantes desconfiavam nitidamente uns dos outros e os Portugueses, apesar de dados à zombaria e dotados de um humor feroz, abstinham-se de falar diante de desconhecidos e que certamente comportava mais riscos, mas que, segundo a opinião da gente do povo, habilmente sustentada pela propaganda oficial, não era tão perigosa como diziam os opositores ao regime. De facto, o soldo de guerra dos recrutas era relativamente satisfatório; o miliciano só recebia uma parte, sendo a outra metade paga ao chefe de família em Portugal. Estas remessas, num país pobre, eram bem-vindas e permitiam a numerosas famílias humildes enfrentar as necessidades mais elementares. Portanto, era essencialmente uma razão económica e social que explicava a ausência de oposição do povo aos dissabores da guerra africana. Um sobrinho de um dos meus criados tinha sido mobilizado e devia juntar-se à sua unidade em Moçambique. O criado estava, sem dúvida, desgostoso pela partida do seu familiar, mas não se sentia tão ansioso assim quanto aos perigos que o sobrinho ia correr. A este respeito, deu-me uma explicação que anotei imediatamente: “Nem todos os mobilizados para África – longe disso – vão para a linha de fogo. Geralmente, são as nossas tropas negras africanas que apanham os piores bocados. Grande parte das nossas tropas metropolitanas é encarregada de missões de guarda e fica estacionada em campos fortificados ou nas cidades. Aliás, em 12 anos, só temos a lamentar a perda de 11 mil pessoas, ou seja, 916 mortos por ano, três por dia. É muito menos que o número de vítimas causadas por acidentes de viação em todo o país”. Onde e de quem tinha o meu interlocutor recolhido esta explicação? Fiquei embasbacado.
 
 
 
 
        
 
      No aspecto humano, a que ligo tão grande importância, fiquei encantado com a espontaneidade do acolhimento, com a gentileza e com a prestabilidade das pessoas do povo, quer pertencessem ao campesinato ou ao mundo operário.
         O acesso aos meios da elite intelectual e daquilo a que geralmente se chama “a sociedade” pareceu-me mais difícil. O valor desses intelectuais era incontestável: encontrei juristas brilhantes, médicos ilustres, académicos eruditos, banqueiros e industriais competentes, mas apercebi-me imediatamente de que esta elite, na maioria, era habitada por uma susceptibilidade extraordinária e animada de um complexo de superioridade, talvez inconsciente, mas real, que por vezes deixava transparecer um pretensiosismo e um orgulho surpreendentes, raiando em certas alturas um sentimento de xenofobia. Convinha ficar de sobreaviso e mostrar-me cauteloso, nas conversas mais banais e anódinas, para evitar melindrar os interlocutores, apesar de dotados de um humor original, acerbo, não desprovido de vivacidade na resposta pronta.
         Era uma elite incontestavelmente instruída no aspecto do saber. No entanto, privada de contactos prolongados com os países estrangeiros, permanecera à margem da evolução das ideias. Não tinha sido influenciada pelos efeitos das diferentes ideologias propagadas durante e após uma guerra mundial a que Portugal teve o privilégio de escapar. Era visível que o regime político a isolara perigosamente. Mantivera-se estranha às correntes políticas, económicas e sociais que, a seguir ao conflito de 1939-45, impeliram os outros povos a adaptarem-se às novas transformações, Além disso, e nada de mais natural, aqueles meios intelectuais e de negócios tinham-se habituado a viver confortavelmente, em vaso fechado, no seio da família portuguesa, célula social especialmente fechada e tirânica; tinham confiança no seu país, no seu regime, neles mesmos; pareciam pouco preocupados com o amanhã, tanto mais que se haviam deixado adormecer um pouco à sombra de um regime que durava havia mais de quarenta anos e que, há que reconhecê-lo, lhes tinha dado, durante todo esse tempo, não só ordem e estabilidade, mas também posições, vantagens e, até, privilégios não negligenciáveis. Neste entorpecimento calmo e benéfico, a elite conservara-se fiel a concepções estatísticas que dificilmente encontravam espaço no mundo moderno. A fé na perenidade do império português era absoluta. Os investidores e homens de negócios desdenhavam colocar capitais em países estrangeiros, reservando-os, prioritariamente, para as províncias de além-mar, Angola e Moçambique.
         A verdade obriga-me a reconhecer que as minhas primeiras impressões sobre os meios intelectuais e sobre a sociedade portuguesa rapidamente se matizaram. Uma vez transposto o fosso das conveniências e das convenções e uma vez estabelecidas relações humanas, verifiquei que o que tomara por arrogância e orgulho, não passava, o mais das vezes, de reserva e pudor. Hoje orgulho-me de ter travado com as pessoas do país amizades sólidas e sinceras que resistiram à prova do tempo e da separação.
         Não os entreterei com as apreciações que na altura fazia sobre aquilo a que se designa por classe média. Este grupo social era, como em toda a parte, heterogéneo; não desempenhava, apesar da existência de um regime corporativo legal, qualquer papel activo, contentando-se com seguir os conselhos e as injunções do regime. Os seus membros pareciam-me, acima de tudo, imbuídos da sua pequena pessoa e desejosos de manter um standing social, frequentemente superior aos seus recursos. Assim, conservavam um pessoal doméstico que exploravam descaradamente; era um drama pungente no dia em que tinham de privar-se de alguém, geralmente uma mulher para todo o serviço, na sua casa.
 
 
 
 
 
         No conjunto, era uma população imobilizada. Duas características, todavia: por um lado, um orgulho e uma fidelidade comoventes pelo passado glorioso; por outro, a existência de um anticomunismo fóbico, quase visceral, herança do Dr. Salazar. As lavagens ao cérebro e os constantes e repetidos esforços da propaganda oficial tinham dado abundantemente os seus frutos. O comunismo era a encarnação do diabo na Terra, e qualquer pessoa que se permitisse criticar minimamente o regime, além das perseguições policiais imediatas, via-se classificada, sem qualquer matiz, de “comunista”, o que constituía a suprema injúria.
         Eu sabia que existia uma oposição real, larvar, clandestina, mas, acabado de chegar, ainda não tivera ocasião de a descobrir.
         A política não ocupava um lugar preponderante na vida do país. Existia, é certo, uma assembleia nacional e uma câmara corporativa, mas os seus membros não se apresentavam nessa qualidade oficial. O facto de se ser deputado não classificava um homem; constituía somente um sinal tangível de pertença ao regime. Havia entre os deputados e os membros das câmaras corporativas personalidades de primeira categoria, mas eu só me aproximava deles no exercício das suas actividades profissionais e mundanas. Eles próprios não se vangloriavam de o ser. Assim, conheci bastantes advogados, juristas, presidentes de conselhos de administração e presidentes de associações diversas (como o Rotary) enquanto ignorava completamente as suas qualidades de representantes da nação. De facto, o mundo político limitava-se aos membros do executivo, quer dizer, à Presidência do Conselho e seus ministros.
         Quanto ao papel da imprensa, era pouco importante. O controlo pelo regime das informações internas, maneira púdica de designar a censura, entravava o trabalho dos jornalistas, embora alguns, mais astutos, conseguissem insinuar, nos seus artigos, o relato de alguns factos ou a publicação de elementos pouco ortodoxos.
         […]



 
 
 
         Conservei a recordação de um almoço, afinal divertido, durante o qual a anfitriã, autêntica marquesa, com 16 quartos de nobreza indiscutíveis, me perguntou com a maior seriedade do mundo, e para minha grande estupefacção, se era verdade que os comunistas e os seus aliados socialistas e os sociais-democratas eram incapazes de se portar correctamente à mesa e de se servir de um garfo! Esta pergunta, na sua ingenuidade e na sua estupidez, era reveladora de um estado de espírito absolutamente falseado pela campanha de intoxicação anticomunista do regime, do qual já tive ocasião de falar.
Max Wery