quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

São Cristóvão pela Europa (60).

 

 
 
Câmara Municipal de Bruxelas, 4 de Fevereiro de 2018
 
Jean-Louis Marzorati, nascido em 1942, é um jornalista e autor francês. Escreveu C’était les années 50 (Eram os anos 50), em que visita aquela década através de acontecimentos que marcaram em especial os franceses.
Nos anos 50 o cinema vive uma era dourada com Marylin, Bardot ou James Dean.
Um dos capítulos do livro é sobre James Dean, e intitula-se «A Juventude Esmagada», relatando os acontecimentos do dia 30 de Setembro de 1955.
O actor tinha comprado um Porsche Spyder cinzento metalizado. Completara 25 anos, vivia um momento de glória. Afirma a Alec Guiness: «Casei-me com uma nova máquina».
Nesse dia lança-se na estrada de Hollywood para Salinas, acompanhado por um mecânico da Porsche e convida dois fotógrafos a segui-lo numa carrinha Ford.
Ainda é apanhado por uma patrulha da polícia em excesso de velocidade mas paga a multa e prossegue. Os jornalistas não conseguem acompanhá-lo.
No horizonte surge o cruzamento de Grapevine, onde a Auto-estrada 41 se encontra com a Estrada Nacional 466. Uma Ford Sedan aproxima-se vinda pela Estrada Nacional. James Dean carrega no acelerador dizendo Tenho prioridade, ele vai parar. Não parou.
James Dean parte o pescoço e morre. A sua fúria de viver é interrompida brutalmente.
Chega a polícia. Dos destroços, recolhe o relógio do carro que marca 15h35 e uma medalha de São Cristóvão em ouro…
 
José Liberato
                                                                                                                                                                     

Notas sobre A Grande Onda - 11

 
 


 
11.
 
Henry Osborne Havemeyer (1847-1907) legou ao Metropolitan Museum of Art, de Nova Iorque, aquela que é unanimente considerada a cópia mais perfeita de A Grande Onda.
 
Industrial e grande empresário, fundador e presidente da American Sugar Refining Company, H. O. Havemeyer é o protótipo do milionário filantropo norte-americano de finais do século XIX, que acumulou uma enorme fortuna através de um trust de refinarias de açúcar, alvo de uma investigação do Congresso em 1894 e de um processo por fraude aduaneira em 1907, ano da morte súbita daquele que era conhecido por «Rei do Açúcar».
 
 
Louisine e Henry Hovemeyer

 
Casado em segundas núpcias com Louisine Waldren Elder  (1855-1929), Henry (Harry) Havemeyer notabilizou-se pela sua extraordinária colecção de instrumentos musicais e de arte, esta última feita em conjunto com sua mulher, tendo o casal adoptado o princípio de que nenhum dos cônjuges poderia integrar uma peça na sua colecção sem o consentimento do outro.
 
As primeiras aquisições de Henry Hovemeyer foram efectuadas em 1876, quando visitou a Exposição de Filadélfia na companhia do pintor Samuel Colman   (1832-1920), onde adquiriu um vasto número de objectos, como figuras em marfim, caixas lacadas do Japão, espadas, etc. O gosto de sua mulher incidiu sobretudo nos impressionistas, em parte devido à influência e amizade de Mary Stevenson Cassatt (1844-1926), descrita pelo crítico e jornalista francês Gustave Geffroy como uma das «trois grandes dames» daquela corrente artística.
 
         Mary Cassatt aconselhou Louisine Havemeyer a adquirir trabalhos de Edgar Degas e de Claude Monet, tendo Louisine realizado nada menos que 33 viagens transatlânticas para comprar obras de arte europeias.  
 
         No seu testamento, Louisine Havemeyer legou 142 obras ao Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque, que posteriormente recebeu mais 1.967 peças que se encontravam na casa Havemeyer na 5ª Avenida.
 
Ainda hoje a H. O. Havemeyer Collection é considerada dos mais vastos e importantes acervos artísticos reunido por um particular no século XIX, tendo ficado célebre na época a compra num curto lapso temporal de oito retratos pintados por Rembrandt. Diz-se que Louisine Havemeyer terá sido, muito provavelmente, o primeiro americano a comprar um quadro de Monet e na colecção Havemeyer é possível admirar pinturas e outros trabalhos de Monet, Daumier, Degas, Corot, Courbet, Manet, Cézanne, entre muitos outros, onde se destacam nomes da escola espanhola, Veronese, El Greco ou Rembrandt. Um  outro grande coleccionador, Albert C. Barnes, chamou ao acervo do casal Havemeyer «the best and wisest collection in America», como se refere no livro Splendid Legacy. The Havemeyer Collection (Metropolitan Museum of Art, 1993), catálogo da exposição inaugurada em 1993 no Metropolitan Museum of Art, sobre a qual pode ler-se uma extensa notícia do The New York Times.
 
No endereço electrónico da Thomas J. Watson Library do Metropolitan Museum of Art, e em resuiltado de uma doação anónima efectuada em 1982, é possível consultar a correspondência de Louisine Havemeyer e Mary Cassatt (aqui e aqui), devendo-se a esta última, como atrás se referiu, a compra por Louisine de trabalhos de Degas e de Monet.
 
Exemplar pertencente a Claude Monet

 
Curiosamente, quer H. O. Havemeyer quer Claude Monet foram proprietários de dois exemplares de A Grande Onda, por sinal ambos de grande qualidade, apenas com a diferença da cópia de Monet ser de dimensão um pouco mais reduzida (24.1 x 36.2 cm) do que a do industrial norte-americano (25.3 x 37 cm).
 


 
A Grande Onda  não foi a única xilogravura de Hokusai que Monet possuiu. Além dela, e entre outras (cf. aqui), a vista do Monte Fuji em tons avermelhados, que durante várias décadas, quase um século, foi para os japoneses muito mais emblemática e apreciada do que a vaga monstruosa de Kanagawa.




 

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Ainda as cheias de 1967.









A Ana Paula Torres escreveu um magnífico trabalho – um livro! – sobre as cheias em Oeiras. Pode descarregá-lo e lê-lo aqui







O Síndrome de Jerusalém.

 
 
 
 
Leio no jornal que o desaparecimento em Israel deste jovem de 29 anos, Oliver MacAffee, pode dever-se ao «síndrome de Jerusalém». Não sabia o que era, e na Wikipedia dizem existir pelo menos três tipos de síndrome de Jerusalém (isto para não falar do síndrome de Estocolmo, do síndrome de Stendhal ou do síndrome da China, só para citar alguns de lembrança). Houve até o trabalho-vídeo de um artista, Nathan Coley, chamado Jerusalem Syndrome, mas não consegui ver no Yotube esse trabalho-vídeo do artista-Nathan, que entrevistou o Dr. Moshe Kalian. No filme abaixo, uma intervenção televisiva do Dr. Moshe Kalian, autoridade psiquiátrica de Jerusalém. Enfim, e portanto, o mundo é um lugar maravilhosamente estranho.   
 
 

 
 
 
 
 

Edward Fickett (1916-1999), modernismo californiano.

 







Notas sobre A Grande Onda - 10

  
 




 

10.
 
A 25 de Abril de 2017, a Christie’s promoveu no Rockfeller Center, em Nova Iorque, o leilão An Inquiring Mind: American Collecting of Japanese & Korean Art, no qual foram à praça diversas obras de Katsushika Hokusai.
 
Entre elas, dois exemplares de A Grande Onda, que foram vendidos a preços muitos distintos em virtude da diferente qualidade de conservação e impressão. Para um valor estimado entre 80 e 100.000 dólares norte-americanos, a xilogravura correspondente ao lote 21 foi vendida por 943.500 dólares.
 
Exemplar vendido no leilão da Christie's, Abril de 2017 (lote 21)

 
 

Com a dimensão 25.3 x 37 cm (idêntica à do exemplar do Metropolitan Museum of Art, de Nova Iorque), trata-se de um exemplar de grande qualidade; pese uma ligeira mancha (assinalada por um círculo vermelho), os contornos estão perfeitamente definidos e, o que não é vulgar, a nuvem no horizonte é bem visível em toda a sua forma e extensão, incluindo o segmento situado no lado esquerdo da imagem (assinalado por um círculo amarelo)  
 

 
 
Em comparação, a gravura do lote 19, com um valor estimado entre os 15.000 e os 20.000 dólares, foi arrematada por 379.500 dólares.
 
 
Exemplar vendido no leilão da Christie's, Abril de 2017 (lote 19)
 
 
Desde logo, a dimensão da gravura é diferente, com 24 x 36.3 cm, semelhantes aos 24.1 x 36.2 cm do exemplar do Museu Monet (Musée des impressionnismes), em Giverny, uma cópia de grande qualidade quanto à impressão mas com uma dimensão inferior ao standard definido pelo «exemplar-padrão» do Metropolitan Museum; tudo indicia que quer o exemplar de Claude Monet, quer o do lote 19 do leilão da Christie’s terão sido aparados nas extremidades).
 

Exemplar de Claude Monet, Musée des impressionnismes, Giverny

 
Por outro lado, as habituais falhas nos contornos, com destaque para a muito vulgar interrupção na linha da onda situada à direita, é visível a olho nu na cópia/lote 19 vendida pela Christie's em 2017. 
 
É possível ter uma noção aproximada do valor atribuído à xilogravura A Grande Onda se tivermos em conta as quantias substancialmente menores alcançadas por outras obras de Hokusai vendidas pela Christie’s no leilão An Inquiring Mind.
 
Assim, e como se indica no catálogo online, a xilogravura do lote 15 foi vendida por 37.500 dólares, a do lote 16 por 47.500, a do lote 17 por 23.750, a do lote 18 por 43.750. O exemplar de A Grande Onda do lote 21, ao alcançar quase 950.000 dólares, foi, aliás, a peça de valor mais alto vendida neste leilão (cf. a lista completa).
 
De certo modo, pode fixar-se nesse valor – 950.000 dólares norte-americanos – o preço actual de um exemplar de A Grande Onda de elevada qualidade. Segundo informa a página web da Antiques Trade Gazette, em Março de 2009 a Christie’s de Nova Iorque vendeu uma «boa impreessão» de A Grande Onda por 68.500 dólares americanos, enquanto mais recentemente, em Setembro de 2012, a Bonhams de Nova Iorque vendeu uma «good impression», mas «faded, soiled, stained and rubbed» por 35.000 dólares, um valor consideravelmente mais baixo.
 
 
O preço de quase 950.000 dólares pelo qual foi arrematado o lote 21 do leilão Na Inquiring Mind atesta bem a qualidade do exemplar posto à venda pela Christie's em Abril de 2017.
 
Em Junho desse mesmo ano, a Sotheby’s de Hong-Kong vendeu um exemplar de A Grande Onda (Lote 737, dimensões 25.7 x 36.9 cm) por 3.820.000 dólares de Hong-Kong, o que equivalente a cerca de 391 mil e 300 euros (aqui). Nota-se claramente a deficiente qualidade desta impressão: 
 
 

Exemplar vendido pela Sotheby’s de Hong-Kong, Junho de 2017

 
 
No endereço electrónico da Christie’s é posível ver ainda um breve vídeo onde, no seu estúdio de Brooklyn, o artista japonês Takuji Hamanaka explica o processo e a técnica de elaboração da xilogravura A Grande Onda.
 
No mesmo endereço, apresenta-se um conjunto de dez tópicos sobre a vida e obra de Katsushika Hokusai,  os quais, apesar de vulgares, podem ser interessantes para os menos familiarizados com a biografia deste artista: (1) desconhece-se a data exacta do seu nascimento; (2) começou a pintar ainda criança, por volta dos seis anos; (3) aos catorze anos, tornou-se aprendiz de gravador de madeira; (4) foi conhecido por trinta nomes diferentes, pelo menos, ao longo da sua carreira;  (5) a sua série mais famosa é Trinta e Seis Vistas do Monte Fuji; (6) tinha dotes de autopromoção; (7) a sua filha mais nova, Katsushika Oi, tornou-se igualmente uma artista de renome, célebre pelos seus desenhos de mulheres belas do Japão; (8) foi rejeitado pelo ateliê-oficina onde fez a sua formação; (9) realizou mais de 30.000 obras ao longo da vida; (10) Katsushika Hokusai não temia envelhecer.  
 
 
 
 
 
 
 

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

K.O.







Quando num livro tão poderoso e tão bom é citado o nome do Malomil, e agradecido o nome do editor do Malomil, cabe exprimir a honra e venerar o privilégio que foi ter sido aqui que saiu à luz um dos textos das Manobras de Guerrilha – Pugilistas, Pokémons & Génios.
Agora reunida a colectânea, em edição remasterizada com uma capa soberba de excepcional, o parecer modesto deste que abaixo assina é que Bruno Vieira Amaral (BVA) se revela um extraordinário escritor de viagens; sempre o foi, aliás, desde o primevo As Primeiras Coisas. Mas agora leiam uma extensa reportagem sobre a Índia e dir-me-ão se tenho ou não razão neste juízo apreciativo. Que é parcial, pois provém de quem há muito admira o talento de BVA. Que é parcial, também, porque reduzir esse talento ao de um escritor de viagens talvez seja excessivo, excessivamente pouco. Leiam o belo ensaio sobre fotografia que aqui vai dentro destas Manobras e concluam comigo sobre a rara e até emocionante sensibilidade de Bruno Vieira Amaral. O resto – e o resto são as muitas e sólidas leituras, a erudição bem calibrada, o interesse atento ao quotidiano concreto, a atenção microscópica ao detalhe humano e suburbano, a imensa nostalgia que irradia de tudo quanto escreve – o resto, dizia, já o sabíamos. Manobras de Guerrilha – Pugilistas, Pokémons & Génios traz, porém, o conforto da confirmação. O regresso a um porto seguro, ao cais de pedra de algumas horas da melhor leitura, com quadrinhos biográficos de grandes vultos (F. Chalana, F. Mercury,  Bowie, Muhammad Ali), digressões livrescas e, quase no final, a retumbante sacanagem de «Ode ao olho do cú»; cita-se aí, nessa pícara ode, uma frase de uma gemida personagem de Rubem Fonseca, que – e a vida tem destas maravilhas coincidentes – também retive quando li A Grande Arte. Foi, aliás, segundo creio, a única frase que a memória guardou dessa obra de génio Fonseca, o que diz muito sobre a magreza – ou perversidade? – das minhas escassas lembranças literárias.   
 
António Araújo
 
 
 
 
 

Ventos de Espanha: Gabriel Cualladó (1925-2003).

 












Notas sobre A Grande Onda - 9

 
 
 
 
9.
 
Num leilão de arte japonesa e coreana, realizado pela Christie’s em Nova Iorque, em 17 de Março de 2009, A Grande Onda (Lote 63) foi arrematada por 68.000 dólares, para uma estimativa inicial situada entre os 15.000 e os 20.000 dólares (aqui).

Exemplar leiloado pela Christie's em 2009, detalhe.


 
        Este exemplar da obra de Hokusai reveste-se de grande qualidade quanto à conservação e à qualidade da impressão, ainda que, comparado com o «padrão» definido pela xilogravura da Colecção Havemeyer do Metropolitan Museum of Art, o cinzento-escuro do fundo se apresente demasiado carregado e enegrecido, sobretudo no campo direito da imagem.
 
Antes disso, em 2002 e em 2003 a Sotheby’s leiloou a colecção de Huguette Bérès, antiquária francesa que em 1951 abriu a sua galeria no Quai Voltaire, especializada em arte japonesa e nas vanguardas artísticas dos séculos XIX e XX (e agora dirigida pela sua filha, Anisabelle Berés-Montanari). Ao longo de décadas, Huguette Bérès, falecida em 1999, reuniu uma das mais importantes colecções privadas de estampas japonesas oitocentistas, porventura a última das grandes colecções «clássicas» de arte o Japão.
 
Sendo comparado ao histórico leilão da colecção do joalheiro francês Henri Vever (1854-1942), que teve lugar na Sotheby’s de Londres em 1974, o leilão da primeira parte da colecção Bérès, realizado em Paris em 27 de Novembro de 2002, ascendeu a um total de 4.926.815 de euros, sendo o valor mais alto – 1.490.750  e euros– sido pago pela série completa das Trinta e Seis Vistas do Monte Fuji (onde se integra A Grande Onda), segundo informou o The New York Times na sua edição de 30 de Novembro desse ano, numa notícia expressivamente intitulada «Paris Auctions; Beres collection sale brings an era to an end». De acordo com esse jornal, fontes bem informadas referiram que a licitação foi feita por um comprador japonês.
 
A segunda parte do leilão, realizada em 25 de Novembro de 2003, continha alguns outros trabalhos de Hokusai, com valores estimados entre os 12.000 e os 70.000 dólares, de acordo com a informação do artdaily.org
 
         Quando foi produzida e comercializada em 1831-32, A Grande Onda custava 20 mon, o equivalente a duas tijelas de noodles soba num restaurante. Poucos anos depois, uma carta de 1838 indica que o preço subira ligeiramente, para cerca de 32-48 mon, ou seja, cerca de quatro a cinco doses de noodles soba.