terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Ericeira, 1945.

 
 
   
Praia dos Pescadores, Ericeira

 


 
(…) a maioria dos portugueses, aos quais nos ligavam laços tão estreitos, festejava com razão o fim da guerra. Contavam com a substituição de Salazar e do seu regime. Quem podia imaginar que os governos anglo-saxónicos tinham acordado entre eles um modus vivendi com os poderes de Portugal e Espanha, já prevendo conflitos futuros com o Leste?
         Para a maior parte dos residentes forçados da Ericeira tudo isto quase passava despercebido, na excitação da partida que se aproximava. Para onde ir? – Era a principal preocupação. Só para os raros “políticos” havia algo de mais importante. Durante pouco tempo, os naufragados em Portugal tiveram a liberdade de escolher o seu destino. A situação na Europa ainda não permitia, ou então só escassamente, que fossem utilizadas as quotas de imigração do outro lado do Atlântico. Por isso, as portas dos EUA, do Canadá, da Austrália e de outros países vistos como países de sonho, estavam abertas temporariamente aos refugiados acolhidos em Portugal, excepto a alguns de esquerda. Muitos aproveitaram a oportunidade. Como marxista convicto e empenhado sempre quisera regressar a Berlim e tudo fizera para ficar na Europa, mesmo que fosse neste ponto extremo. Quanto a isso, não tinha mudado de ideia, apesar de todos os actos inconcebíveis que os alemães tinham cometido contra outros seres humanos. Pelo contrário, eu continuava a ser de opinião de que uma Alemanha demasiado forte e promissora quanto ao poder económica, à grandeza demográfica e capacidade em vários sectores, em circunstância alguma deveria ficar à mercê de homens incorrigíveis.
         Não demorou muito que a permanência forçada fosse levantada; só para mim, rebelde, é que não. Comigo ficava Selma Oppenheimer, de livre vontade. Se bem me recordo, seríamos os últimos refugiados a deixar a Ericeira. O resto de 1945 e até ao final do Verão de 1946 tentara, esforçadamente, junto dos Consulados da Grã-Bretanha e dos EUA, obter a autorização de regresso a Berlim. Como potências ocupantes estar eram as autoridades competentes na matéria. Tudo em vão, durante meses, e também para uma dúzia de outros que tinham a Alemanha em mira, entre eles Owczarzak ou o janota romeno Josipovici. Regressar à Alemanha era logo entendido por alguns como traição; até da parte de “quakers” tive de suportar insultos. Depois, a situação mundial anuviou-se e aos de esquerda, ou tidos como tal, eram abertamente levantados obstáculos. Alguns, também antigos combatentes de Espanha, conseguiram sair por outros meios, pois quem fosse politicamente de esquerda e quisesse regressar pelas vias oficiais tinha ainda de esperar um ano e meio. Perguntávamo-nos porquê esta demora?
         Só no fim do Verão de 1946 é que chegou a autorização dos aliados ocidentais para regressarmos. Em Agosto, recebi um telegrama do solícito vice-presidente da Comunidade Israelita de Lisboa, informando-me de que eu poderia embarcar para a Alemanha, juntamente com outros exilados, no navio americano “Marine Marlin”, até então ao serviço do transporte de tropas. Mais não era conhecido, apenas sabíamos por um impresso quanta bagagem podíamos levar e qual o cais em que nos devíamos encontrar para o embarque. Mandeu vir de Lisboa em grande baú de marinheiro, de rija madeira, reforçada a aço. Últimas compras no senhor Caré, o dono da principal mercearia da Ericeira, de que eu era velho freguês. Prevendo a escassez de víveres que, por certo, havia na Alemanha vencida, comprei, experiente como era, toucinho salgado, azeite, margarina em latas, óleo de fígado de bacalhau, enchidos fumados, açúcar, leite em pó, chocolate, café, chá, cigarros, alguns medicamentos e outros artigos.
         Neste navio-transporte americano eram deportados para a Alemanha diplomatas nazis e o seu pessoal de segurança das SS. No meio deles, nós, judeus! Já não pudemos sair do barco. Assim navegámos até Bremerhaven. Dali seguimos, juntamente com os nazis – alguns deles gravemente incriminados –, num comboio de mercadorias adaptado ao transporte de prisioneiros e cercado por arame farpado. O nosso destino: o campo de internamento americano de Hohenasperg, próximo de Stuttgart. Só decorridos alguns dias, em que ameaçámos com a greve de fome. É que nós, antifascistas, fomos postos em liberdade…
 
Fritz Teppich

 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Ericeira, 1944.

 
 
Fritz Teppich (1918-2012)
 
 
 
Antigo combatente na Guerra Civil espanhola, Fritz Teppich foi um exilado de guerra alemão (ver também aqui). Ao chegar a Portugal, envolvido em mil peripécias, é detido pela PVDE e preso no Aljube, onde conhece o dirigente comunista Joaquim Pires Jorge. Depois, será transferido para a Ericeira, em regime «aberto», sendo aí que assiste ao fim da 2ª Guerra, como podemos ler no seu interessantíssimo livrinho de memórias, Um Refugiado na Ericeira, publicado pela Editora Mar de Letras em 1999, com prefácio de David Evans. Ver aqui a notícia da sua morte.
 
 
O Fim da Guerra Visto da Ericeira
 
Em Portugal, no Inverno de 1942/43, nós, exilados, acompanhámos durante semanas angustiantes a batalha incerta de Estalinegrado, uma super-Verdun. Quando finalmente já não havia dúvida quanto à vitória do Exército Vermelho de Libertação, os nossos receios transformaram-se em alegria transbordante.
         Seguimos todo o desenrolar dos acontecimentos na segunda metade de 1944 e Primavera de 1945, ainda no exílio seguro da Ericeira. Derrotadas, as tropas do Reich foram repelidas pelos russos e também pelos aliados ocidentais que em Junho de 1944 tinham desembarcado no Norte da França. Mas corriam notícias preocupantes – na sua fuga, os bárbaros reforçavam as suas acções de extermínio. Auschwitz começou a tornar-se um conceito. Nem sequer nós, prevenidos, tínhamos pensado que outros alemães fossem capazes de tais actos.
         Em Portugal reinava a indignação. A Legação alemã ainda procurou contrapor a isto uma autêntica inundação de iniciativas culturais. Em Março de 1944, o proeminente Carl-Friedrich Von Weizsäcker brilhou nas Universidades de Lisboa, Coimbra e Porto com conferências sobre “Física Atómica e Filosofia”. Em Maio, seguiu-se o famigerado especialista em Direito Político, Carl Schmitt, que falou sobre “A Situação Actual da Jurisprudência”, bem como sobre outros temas que lhe serviam para dar uma imagem manipulada do III Reich como Estado de Direito. Um grande número de intelectuais alemães deixou-se levar nesta ofensiva de dissimulação. Entre eles, os Professores K. Vossler, H. Lautensach, W. Andreas, G. Gadamer, E. Schultze, W. Stepp, E. G. Nauck, H. Runge, H. Haubold e W. Rudorf. Em 21 de Janeiro de 1944, fora inaugurada em Lisboa a sede do Instituto de Cultura Alemã. Em Fevereiro, realizara-se em Lisboa e, logo a seguir, no Porto uma exposição de Arte alemã; em Junho um concerto em honra de Richard Strauss, etc., etc. No número inaugural da sua Revista, o Instituto de Cultura Alemã dá-nos conta da intensa actividade que desenvolveu nesse período de 1943/44.
         Longe de Portugal, em breve os acontecimentos precipitaram-se. O exército soviético tinha avançado centenas, milhares de quilómetros. Libertara Auschwitz e outros campos de concentração, repelira os exércitos nazis dos estados a leste e a sudeste. Finalmente, as forças soviéticas estavam às portas de Berlim, enquanto as forças ocidentais tinham já atravessado o Reno. No rio Elba, na Alemanha Central, era a confraternização dos libertadores que se encontravam, vindos do Leste e do Oeste. Por toda a parte surgia a esperança em melhores tempos de paz. E nós continuávamos ainda na Ericeira.
         Naquele lugar acolhedor, batido pelo Atlântico, vivi o fim da guerra. Pouco a pouco, foi chegando ao conhecimento da maior parte de nós que os seus familiares, que tinham ficado nos países da Europa Central ou Oriental ocupados pelos alemães, haviam acabado nas câmaras de gás, fuzilados, assassinados. A Cruz Vermelha Holandesa escreveu-me a comunicar que a minha mãe Gertrud Teppich, o meu irmão mais novo Helmut, bem como tias, tios e muitos outros parentes, que antes da guerra tinham encontrado asilo na Holanda, foram vítimas do extermínio em massa. A dor provocada pelo fim horroroso de todos eles não me larga.
 
(Continua)  



domingo, 19 de fevereiro de 2017

Impérios Perdidos.

 
 











A minh´alma está parva. Acabo de descobrir o Nuno Perestrelo e o seu trabalho. O Nuno é um jovem fotógrafo freelancer, nascido em 1988, que, à semelhança de muitos, se deixou levar por uma paixão ruinesca típica do nosso tempo. Lembre-se Ruínas, de Manuel Mozos, ou Ruin’Arte, do também fotógrafo freelancer Gastão de Brito e Silva. Com Lost Empires, o Nuno traz-nos imagens de antigos colossos industriais, em estado arqueológico e prognóstico reservado. Naves imensas, paradas no tempo, os interiores de oficinas e armazéns, grafitos das velhas lutas operárias. E máquinas, gigantescas, gruas ameaçadoras, toneladas de papéis de arquivo delidos pela passagem dos anos, perdidos no meio de fábricas vazias. Imagens que mostram silêncio onde outrora houve ruído. Fotografias que exalam a quietude dos cemitérios, em lugares antes movimentados e em plena laboração febril, fabril. Um trabalho oficinal fantástico, do outro mundo, que deve ser conhecido – e, por isso, aqui fica, com um abraço grato ao Nuno, do
António Araújo
 
 
 
 

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Memórias Perdidas - 9



 

 
Filho da Pneumónica – Narrativas da vida real, de Arthur Ligne, editado pela Câmara Municipal de Lagoa em Novembro de 2014, não é propriamente um livro de memórias. Ou, melhor dizendo, não é uma autobiografia. Por isso, segundo um critério estrito, não deveria figurar nesta rubrica «Memórias Perdidas».
         Acontece que o MALOMIL não é um blogue muito regrado. E sucede que o livro de Ligne, se tiramos uma ou outra observação mais simplista deste jornalista da «Gazeta de Lagoa»(ex., a favor da prisão perpétua), contém histórias de vida que são muitíssimo interessantes. Como a de Fernando Ribeiro, filho de Deolinda de Jesus Ribeiro e de pai incógnito, nascido na freguesia de Belém em Agosto de 1913 (em boa verdade, Fernando não era filho de pai incógnito. O progenitor, todos os sabiam, era um graduado da GNR, que Fernando acabaria por conhecer, ainda que só na idade adulta). Sua mãe nascera em 1889, residia no Barreiro e deu entrada no Hospital Camões, a 26 de Outubro de 1918, depois de ter sido transportada até ao Cais das Colunas, no Terreiro do Paço, em Lisboa. Vinha Deolinda da Outra Banda em estado terminal de gripe pneumónica, de que viria a falecer três dias depois. Com 29 anos de idade.
         De pai incógnito, órfão de mãe, a avó pediu ajuda à Cruz Vermelha. Foi então Fernando internado no Orfanato Temporário da Junqueira, onde deu entrada em Setembro de 1920. Um ano depois, com o encerramento do Orfanato, foi transferido para a Casa Pia. Anos depois, ainda jovem, meio adolescente, começou a trabalhar na Fábrica de Malas Trindade, corria o ano de 1929. Tinha Fernando a idade de 16 anos.
         Aos 17, ofereceu-se como voluntário na Marinha de Guerra, onde assentou praça. Depois, por supostamente se ter envolvido na Revolta da Madeira, esteve detido no Forte da Graça, em Elvas, de 1932 a 1933. Até ao final da vida, foi um oposicionista a Salazar, tendo a ventura de assistir ao fim do Estado Novo, em Abril de 1974. Após sair da prisão, fez mil e um cursos, especializou-se como electricista, tornou-se simpatizante ou mesmo militante comunista, foi responsável pela electrificação das casas de pescadores da Costa da Caparica. Uma vida vivida, em suma.
         De permeio, tornou-se feirante, com tasca de comes e bebes à Feira Popular, na altura sita ao Parque de Santa Gertrudes, onde é hoje a Fundação Gulbenkian. Como electricista e feirante, Fernando percorria o país de lés a lés e, numa ocasião, conheceu Maria das Neves, rapariga modesta residente em Tomar. Aquilo que seria mais um episódio da sua vasta carreira de pinga-amor, virou caso sério. Maria das Neves era uma valente, curtida pela vida, que nascera, também ela, filha de pai incógnito e filha ilegítima de sua mãe, que, por sua vez, foi exposta na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.
         Esta história diz-nos muito do que se vivia – e sofria – em tempos do nosso tempo. O que a distingue de uma novela pungente ou de um romance neo-realista é o facto de ter sido autêntica, realmente passada com gente. Maria das Neves tornou-se criada de servir e, numa ocasião, foi à festa na Várzea Grande. Foi aí que se enamorou do feirante-Fernando, com quem passou a coabitar, e de quem teve quatro filhos, sucessivamente nascidos, ao ritmo da biologia. Às tantas, seguindo o script clássico, Fernando abandonou-a, trocou-a por outra mulher. Por bandas de 1944 ou 1945, andava a Europa mergulhada numa guerra tremenda, Maria das Neves não foi de modas. Deslocou-se a Lisboa e fez uma escandaleira. Ali, na Feira Popular, em pleno restaurante (no «Marco do Correio» ou «Fernando das Caldeiradas»), frente a Fernando e à nova companheira. Esta última apaziguou Maria das Neves, ultrajada no seu pudor e, pior do que isso, incapaz de carregar em exclusivo o fardo de criar sozinha quatro filhos em pleno crescimento. Chegou a propor a Fernando que lhe ficasse com metade da prole, que ela, abandonada, não podia educar por inteiro. Não vamos entrar em detalhes. O certo é que Ferrando assentou, acabou por casar com a nova companheira, Maria de Jesus. Isto muitos anos passados, em Outubro de 1976.

          A descendência de Maria das Neves e de Fernando fora dividida trinta anos antes: dois ficaram com a mãe, dois para o pai. Os filhos de Maria e Fernando tiveram filhos e netos e bisnetos. Fernando teve ainda um filho com Maria de Jesus e, em 1971, uma menina, fruto de uma ligação extra-conjugal. A vida daria de Jesus, passada com o feirante-electricista, fora madrasta, a ponto de terem sido classificados como indigentes por uma junta de freguesia, que o narrador não especifica. Antes disso, viveram em condições apertadas, amargas: primeiro, no Seixal, para onde fugiu Fernando às perseguições políticas do regime autoritário; depois, num velho prédio nas Escadinhas da Mãe d’Água, na Praça da Alegria; a seguir, num rés-do-chão acanhado nas imediações da Rua de São José. Até ao fim da vida, diz Arthur de Ligne, Fernando Ribeiro manteve uma espécie de «paixão política hereditária» (sic) por Álvaro Barreirrinhas Cunhal.       
            Maria de Jesus, por seu turno, morreria em Maio de 2007.





quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Higiene Militar, por Chaves de Almeida.






         Se um beijo se tornar suspeito, devemos proceder, como medida preventiva, à lavagem imediata dos lábios com água e sabão, mas não devemos esquecer o que acabo de referir no tocante às vantagens dos corpos gordos. Aplicaremos sobre eles uma camada de vaselina, que deverá ser mantida durante alguns minutos.
         Pelo mesmo motivo, não será asneira engordurar as partes genitais antes do acto do coito.  





A Cartilha do Sifilitico.
















         Nenhum sifilítico deverá casar sem que o médico que o costuma tratar o autorize a fazê-lo, pois os seus filhos podem nascer idiotas, aleijados e tarados.









A Banana.









 






         Nunca devem comer-se bananas no dia em que se comam batatas, batatas doces e outros feculentos similares, porque a digestão total intestinal leva de 19 a 23 horas e encontram-se os anticorpos nos sucos da absorção quilífera da ramificação hepática.







quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Malomil.

 
 
 
 

 
 
 
Da esquerda para a direita: Leonor, Juliana, Catarina, João e Andrea.
Não falei com o Sr. Manuel Alonso Misa, Lda., mas o Malomil fica…
E vocês, Leonor, Juliana, Catarina, João, Andrea, ficam a partir de agora no coração do Malomil, com a imensa gratidão do
 
António Araújo
 
 
 

& etc... na Biblioteca Nacional.


 
 
 

 
& etc
EXPOSIÇÃO | 22 fev. - 31 maio '17 | Mezzanine | Entrada livre
 
O periódico & etc, quer na sua forma primitiva (1967-1971) como suplemento literário do Jornal do Fundão, quer já autónomo (1973-1974), como magazine cultural, marcou uma época histórica que acompanha a resistência ao salazarismo e, depois, o fim do marcelismo.
 
As suas caraterísticas contraculturais e libertárias ficaram a dever-se a um vasto conjunto de escritores e ilustradores, de que Vitor Silva Tavares sempre se fez rodear, numa deliberada proposta límpida e moderna, posteriormente enformadora do que veio a ser a editora de livros homónima.
 
A Biblioteca Nacional de Portugal assinala com a presente exposição os 50 anos decorridos sobre a publicação do número 1 do periódico, mas também o inesperado falecimento do seu respetivo mentor.
 
 
 
Vitor Silva Tavares, filho da Madragoa, nascido a 17 de julho de 1937, faleceu num hospital da sua cidade a 21 de setembro de 2015.

Mais conhecido como editor de livros e do periódico & etc, são de assinalar as suas fulgurantes passagens pela programação da editora Ulisseia, num curto período que se estende de finais de 1964 ao início de 1967, esporadicamente até meados de 1968, e pela direção do suplemento literário do Diário de Lisboa, no início dos anos 70. De permeio inventa, para encarte no Jornal do Fundão, o suplemento cultural & etc..., já na altura de cariz libertário, e experimental no sentido em que ali se ensaiaram algumas das regras básicas no jogo de iludir a censura.
 
Paulo da Costa Domingos
Comissário da Exposição
 
(aqui)
 
 
 
 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Os Provadores da Palavra.

 
 




OS PROVADORES DA PALAVRA

 

Os poetas são os provadores da palavra,

Provam as palavras

Como se prova o vinho.

Eles conhecem-lhes os aromas e o toque

Se são femininas, se são masculinas,

Se são suaves, se são duras.

Se digo: - o comunismo.

Quantas lutas

Quantos sonhos

Quantos homens

Quantas mulheres

Quantos países

Quantos continentes

A palavra toca,

Quanta poesia numa só palavra,

Quantos romances

Quantos poemas

Nasceram dela

Atómicos, radioactivos,

Como As Teses da Urgeiriça.

 

-Tomai-a! Fazei-a vossa!

Bebei todos dela!

 
 
05.01.2017
João Camacho

 





sábado, 11 de fevereiro de 2017

Memórias Perdidas - 8

 
 
 
 
         Não são propriamente memórias perdidas pois estão à venda e encontram-se disponíveis na casa editora, a MinervaCoimbra. Mas nem por isso devemos deixá-las de parte, tal a raridade no nosso país de memórias – e memórias autênticas, escritas por mulheres.
         Maria Manuela Ribeiro da Fonseca Esteves de Mendonça nasceu em Lisboa, onde obteve duas licenciaturas: em Medicina e em Ciências Pedagógicas. Fez carreira clínica distinta, nas áreas da psiquiatria e da pedopsiquiatria, ensinou na capital e em Coimbra. Antes deste livro, tinha publicado em 2009 Nascer nos Anos Trinta – Memórias e Imagens de um Quotidiano. Não lemos, mas temos pena.
         Com o presente livro, Manuela Mendonça traz-nos os seus tempos de aluna do Liceu D. Filipa de Lencastre, na altura exclusiva e rigorosamente feminino. A rapaziada do Camões, que ficava por perto, ainda se tentava abeirar das meninas do Filipa, mas a directora, austera e casta, chegou a ordenar que fossem proibidos de circularem nas imediações de todo o Bairro do Arco do Cego.
         Era lá que ficava – e fica – o Liceu Filipa, construção estadonovista que a autora praticamente estreou, em estado novinho (o liceu fora inaugurado em 1940-41 e Manuela Mendonça começou a frequentá-lo em 1943). Menina e moça, a pequena Manuela saía de casa de seus pais, no nº 41 da Avenida Óscar Monteiro Torres, certeira e atilada, e ia diariamente a pé até ao Liceu, onde imperava um rígido sistema multicolorido: as alunas que tinham autorização para ir almoçar a casa (cor rosa), as que estavam dispensadas de Educação Física (cor branca) e as mais liberais de todas, de amarelo, autorizadas a sair da escola se acaso não houvesse o último tempo lectivo. É difícil não sermos contagiados pelo olhar nostálgico e saudosista daqueles tempos felizes e puros, tal como descritos na memória de Manuela Mendonça. Por vezes, a autora excede-se um bocadinho, nomeadamente quando enaltece as virtudes da Mocidade Portuguesa Feminina, linhas depois de reconhecer que aquela organização se tinha inspirado no modelo da Itália fascista. Por esse motivo, o pai, com quem não teve uma relação fácil, esteve praticamente a proibi-la de frequentar o seu amado Liceu Filipa. Em todo o caso, a nossa autora não é tão inflamada na defesa da Mocidade Portuguesa como o foi, no seu tempo, a colega Maria de Lourdes Pintasilgo, que desempenhava funções de Chefe de Castelo e, como tal, «procurava atrair as caloiras mais classificadas que poderiam ascender a Chefes de Quina e seguir carreira», diz Manuela Mendonça, que acrescenta, cortante: «Nunca aceitei».
         Também não aceitou os arranjos pré-matrimoniais que, desde os seus 13 anos, eram cochidados entre tias e outra parentela. Este é dos tópicos mais interessantes do livro. Num certo sentido, são memórias de uma menina bem comportada. Mas, por outro lado, o livro mostra uma personalidade estruturada, com o seu quê de independente, sendo entremeado com trechos do seu diário que revelam, sobretudo para os padrões de hoje, uma maturidade surpreendente. Ah, e uma qualidade de escrita que vinha de muitas e muitas leituras, nas férias que, à época, eram verdadeiramente grandes. Para os olhos contemporâneos, tudo pode parecer uma pasmaceira infernal, meninas a gastarem os verões na aprendizagem de bordados ou horas intermináveis de leituras. De boas leituras: Katherine Mansfield, Jane Austen, George Eliot e, uns furos abaixo, os inevitáveis ALexis Carrel e Pearl Buck. Mas também Rilke, Tolstoi, Stendhal, Tolstoi.
         Com a sua geração, Manuela Mendonça fez «amigas-irmãs» entre as colegas de liceu. Isto, claro, sem prejuízo das habituais tricas de adolescentes, e de uma ou outra alfinetada aqui e acolá. Não era a toa que se passavam tardes sobre tardes no corte e na costura… Mas, e voltamos ao ponto, o livro é interessantíssimo para entrar, até certo ponto, na visão do mundo de uma rapariga burguesa da Lisboa do tempo da 2ª Guerra, que foi mundial. Palavras como menstruação, gravidez e parto não eram utilizadas, optando-se por «já ser senhora», «estar à espera de bebé», «ter encomendado», «dar à luz».
         As «amigas-irmãs» decerto trocavam confidências sobre tudo isto, mas o livro, discretíssimo, não se alonga em pormenores escabrosos, impróprios de uma menina-família que, pressente-se nas entrelinhas, sempre manteve alguma altivez social e intelectual. Louva a «ordem» mantida no Liceu Filipa, tamanha disciplina que lhe chamavam «Convento das Filipinas», em contraste com o Maria Amália, tido por mais liberal e aberto. No Filipa, cada aluna era etiquetada, tendo um emblema na lapela que indicava o respectivo ano. Depois, as férias. E os brinquedos de infância, que a autora diz ter oferecido ao Museu do Brinquedo de Seia. Vi-os há uns meses, não sabendo a quem pertenciam. São, ou foram, de Maria Manuela Mendonça, que com orgulho se exibe como antiga aluna do Liceu Filipa de Lencastre – e cidadã do mundo e do tempo em que o liceu nasceu e fez escola. Festejou a vitória dos Aliados, frequentou as lojas da Baixa elegante: a Casa Leonel, a Gardénia, a Pompadour, os figurinos do Midões, e Madame Pavão (esta, ao Campo Pequeno). «Um dos passeios que demos, bastante grande, foi à terra da minha criada», conta-nos numa carta de 1948. Uma frase que diz muito. Ou outro episódio: as finalistas planearam ir à longínqua Madeira na viagem de tradição. Acabaram numa excursão ruidosa e alegre às Caldas da Rainha, que o dinheiro não deu para mais. Mas lá foram ela, cantando e rindo, passando por Alcobaça. Muitas já terão morrido, provavelmente. As outras estarão velhinhas, por certo. Mas todas se lembraram do seu tempo de moças castas, a adolescência casta, de quando Manuela Mendonça escreveu: «Sentia-me emocionada e confusa perante o sexo forte; não conseguia encarar com serenidade qualquer rapaz conhecido que comigo falasse uns momentos; ruborizava-me, olhava desconfiada para os lados buscando auxílio em qualquer pessoa que me pudesse surgir, e acabava por me evadir na primeira ocasião».
         Aluna distinta, Manuela entrou na Universidade – e sem a oposição do seu pai. Formou-se uma vez, depois outra, deu aulas e consultas, escreveu livros. Como este, que aqui fica apresentado, com timidez e candura.
 
António Araújo