segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Lisboa, 1960.

 
 
 
 
Criados em 1916, os Guide Bleus são a mais antiga colecção de guias turísticos de França. Não trazendo propriamente informação nova ou surpreendente, o trecho ora traduzido e publicado interessa sobretudo porque ilustra uma visão de certo modo estereotipada da cidade – que, porventura, ainda se mantém –, do mesmo modo que condensa, digamos assim, a «versão oficial» de Lisboa que as autoridades do Estado Novo tentavam projectar. À época – mais precisamente, em 1960, data da edição deste Guide Bleu sobre Portugal –, a colecção era dirigida por Francis Ambrière (1907-1998), escritor galardoado com o Prix Goncourt pelo seu livro Les Grandes Vacances (a obra é de 1940 mas, devido à 2ª Guerra, o prémio seria atribuído retroactivamente, em 1946). No prefácio, Ambrière agradece aos responsáveis por diversos capítulos – Reinaldo dos Santos, Armand Guibert, etc. – e às autoridades que auxiliaram a elaboração do guia, com destaque para o Secretariado Nacional de Informação, reconhecendo ainda o apoio, entre outros, de Pierre Hourcade (então director do Institut Français de Lisboa), João Couto (director do Museu de Arte Antiga) e Maria Vaz Pereira (conservadora do Museu de Artes Decorativas). O capítulo dedicado a Lisboa é muito extenso, tendo sido apenas traduzida a respectiva introdução.  
  
Lisboa, 1960
Fotografia de Artur Pastor
 
 
Lisboa – cidade com 783.226 habitantes, capital de Portugal, sede de um Patriarcado, encontra-se situada a 38°42´43´´ de latitude Norte e a 9°7’54’’ de longitude Oeste de Greenwich, na margem direita do Tejo, no local onde o rio, tendo desaguado num vasto estuário, se espraia num mar interior chamado Mar da Palha, para depois desembocar no Oceano, a 6 quilómetros da capital. Lisboa apresenta, assim, ao longo do rio, uma extensão de 16 quilómetros na horizontal, do Poço do Bispo, a Leste, até Algés, a Oeste.
Construída em anfiteatro na encosta de numerosas colinas, das quais algumas têm mais de 100 metros de altitude, chegando a alcançar os 226 metros no pico de Monsanto, Lisboa é uma das mais belas cidades da Europa.
O seu relevo acidentado faz com que, por vezes, existam miradouros de onde se tem uma vista soberba e sempre variada dos diversos bairros e do atoalhado majestoso do Tejo. Graças à sua atmosfera límpida, à sua luz dourada, todas as linhas são recortadas e visíveis com absoluta nitidez.
Infelizmente, os terramotos reduziram a monumentalidade de Lisboa. Perdeu-se, acima de tudo, o enlace pitoresco dos pinheiros e dos campanários, que no passado apontavam para os céus. Apesar dos desníveis do solo, a cidade tem ruas largas e bem alinhadas, praças magníficas, casas altas e bem construídas; de uma arquitectura extremamente banal, é certo, mas a que os bonitos revestimentos de faiança esmaltada (azulejos) conferem uma frescura deliciosa.
O centro da vida urbana é a Baixa, isto é, a zona situada entre a gare e a praça do Comércio ou Terreiro do Paço, e que foi edificada, com uma grandeza e uma rapidez impressionantes, pelo célebre marquês de Pombal, após o terramoto de 1755. Aí, as ruas são desenhadas a régua e esquadro, entrecortadas em ângulos rectos que formam um gigantesco tabuleiro de xadrez, ocupando o vale outrora banhado pelas águas do Tejo. As ruas mais belas e mais animadas, onde se encontram as melhores lojas, são as do Ouro (oficialmente, rua Áurea), da Prata e Augusta, abrindo esta para a praça do Comércio através de um arco triunfal. Na zona oriental (o núcleo primitivo da cidade), encontra-se a velha Alfama, um dédalo de ruas estreitas e tortuosas que evoca a Lisboa dos séculos XV e XVI. Quanto à zona ocidental, o antigo Restelo, de onde partiram precisamente os navegadores que trouxeram a glória a Portugal, é o lugar onde se encontram os mais belos monumentos das Descobertas, no faustoso estilo manuelino: o convento dos Jerónimos e a torre de Belém.
Após 1890, Lisboa cresceu significativamente, estendendo-se para Norte através de belas e amplas avenidas, e prolongando-se para Oeste na «costa do Sol», a principal zona turística e estação de veraneio do país, servida por uma grande estrada marginal que bordeja o Tejo.
O plano de ordenamento de Lisboa, concebido graças à iniciativa de um grande ministro, o engenheiro Duarte Pacheco, tomou forma em 1938, quando, graças ao seu espírito visionário, foi concretizado o projecto da rede viária que permitiu o nascimento de novos e grandes bairros.
Seja na zona Leste (novo bairro da Ajuda), ou a Norte, onde os bairros do Areeiro e de Alvalade albergam cerca de 50.000 habitantes formando uma nova cidade, Lisboa cresce vigorosamente, conservando, porém, as características tradicionais de uma arquitectura leve e vivaz que sempre foram apreciadas pelos estrangeiros que visitam Portugal.
Um dos projectos mais marcantes do plano do ministro Duarte Pacheco é já hoje uma realidade: o parque de Monsanto, com cerca de 1.000 hectares, de onde se tem as melhores vistas panorâmicas da capital. Entre os principais edifícios desta fase de crescimento pode citar-se os do Instituto Superior Técnico, da Moeda, o Instituto Nacional de Estatística, o hospital universitário, e numerosos edifícios, tais como liceus, escolas técnicas, blocos de habitação, grandes cinemas (Monumental, São Jorge, Império). Saliente-se ainda o liceu Charles-Lepierre (1952), construído pela comunidade francesa, e o metropolitano (duas linhas abertas em 1959).
A numeração das ruas parte do Tejo ou acompanha o curso do rio, encontrando-se os números pares à direita e os ímpares à esquerda.
O traje nacional das gentes do povo praticamente desapareceu. No entanto, o modo de caminhar e o porte altivo das vendedoras, sobretudo as do mercado do peixe (varinas), acostumadas a levar à cabeça, num equilíbrio perfeito, cestos carregados de provisões ou até mesmo cântaros de água, e que gritam uma espécie de preghiera com uma sonoridade às vezes estranha, despertarão certamente a curiosidade dos estrangeiros.
 
Tradução de António Araújo




Vénus Geradora, de A. Cabral.

 
 
 
 
«O gamo é um pouco mais pequeno que o veado e, embora haja entre eles muita semelhança, não se podem ver, nunca andam juntos, evitam-se, não se cruzam nunca e por conseguinte nunca formam nenhuma raça intermediária. Procuram as fêmeas aos dos anos, não se lhes ligam em união duradoura, antes as trocam como o veado. A fêmea do gamo, assim como a corça, tem uma gestação de oito meses.»

 

domingo, 21 de agosto de 2016

Batas Brancas, de Evaristo Franco.

 
 
 
 
 
«Quando, no manicómio, o médico quis averiguar o estado mental de Neomira, participando-lhe a morte do filho, a pobre louca, numa atroz descompostura de trajos e das maneiras, ouviu a notícia soltando gargalhadas de risos paroxísticos. Não havia recuperado, ainda, a mínima parcela da sua antiga sensibilidade moral.»

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Spínola e as telenovelas.

 
 
 

 
         Durante o segundo exílio do General Spínola no Brasil, encontrava-me eu aí a fazer pesquisas no campo da literatura e a fazer conferências e a rever, descobrir e saborear as maravilhas desse vastíssimo país lusófono.  
         Praticamente convencido de que pouco mais lhe restava, na sua qualidade de oficial superior do exército português, do que enfeitar o seu papel de primeiro presidente de Portugal, depois da Revolução de 25 de Abril de 1974, e de resistente, após a tomada do poder pelo Partido Comunista Português e pelos militares esquerdistas e marxistas, o Genaral Spínola decidiu imprimir os discursos proferidos durante a sua presidência e as conferências e entrevistas feitas e dadas após ter abandonado a dita presidência, no dia 28 de Setembro de 1974.
         Como durante os primeiros meses desse segundo exílio, a sua sobrinha Maria Luísa Coelho, que o tinha secretariado durante o seu curto mandato de Presidente da República Portuguesa, após o golpe militar de 25 de Abril, não se encontrava disponível para o secretariar, devido a outras ocupações, coube-me a mim desempenhar informal e voluntariamente esse cargo. E a quem me perguntar por quê me prontifiquei a fazer isso simplesmente responderei que, para além da amizade que me ligava a ele e de acreditar na honestidade do General e no mérito da obra, também eu estava sinceramente empenhado em dar o meu modesto contributo para o restabelecimento da democracia em Portugal. Primeiro por saber, por experiência própria, como cidadão e residente dos Estados Unidos da América, do valor e dos encantos da democracia, em comparação com os horrores de um regime totalitário e ditatorial; segundo, por ter presas, em cadeias portuguesas, com o nefando estatuto de prisioneiros políticos, pessoas que me eram particularmente queridas e a quem o regime então no poder em Portugal ameaçava executar, indo, por mais de uma vez, alguns dos seus carcereiros, alta noite, abanar-lhes as grades das celas e informá-las que no dia seguinte seriam levadas ao paredão e fuziladas, juntamente com muitos outros dos prisioneiros políticos que com essas pessoas sofreram as agruras despóticas e bárbaras do cárcere e foram sujeitas injusta e arbitrariamente a esse tipo de tortura.
         E foi essencialmente por essas duas razões que eu decidi colaborar com o General Spínola, durante a minha estadia no Brasil, na elaboração do livro que veio a sair a lume, em Novembro de 1976, com o título de Ao Serviço de Portugal, título, aliás, que eu sugeri, por nele se reflectir sobretudo a preocupação, por parte do General, de envidar todos os seus esforços para fazer de Portugal um país genuinamente democrático, onde todos os portugueses tivessem orgulho de viver.
         Por essa altura, eu morava em Copacabana, na rua Belfort Roxo, e o General Spínola morava no Leme, separando-nos uma distância de uns dez minutos a pé, pouco mais ou menos.
         Aí por volta das oito da noite, depois da ceia, portanto, chegava eu ao apartamento do General Spínola e tocava a campainha. Quem me abria a porta era a D. Maria Luisa, sobrinha do General, como se referiu atrás. Ela a abrir-me a porta e o tio a dizer-lhe:
         - Ó Luisinha, serve aí alguma coisa ao Professor e diz-lhe que tenha a bondade de esperar um pouco, enquanto eu acabo de ver a telenovela.
         E enquanto a D. Maria Luisa e eu tomávamos um café ou um chá e conversávamos, aquele homem austero, frugal como um eremita e de uma formação espartana, a toda a prova, não permitia que ninguém o perturbasse enquanto ele, deliciado e embevecido, assistia piamente à telenovela brasileira.
         Terminada a novela, deixava a sala de estar e vinha ter connosco a pedir desculpa pelo atraso. E, o que era mais, assumia o ar de alguém que tivesse estado a fazer alguma coisa menos apropriada para uma pessoa como ele, ex-comandante e combatente dos matagais e pauis da Guiné e ex-presidente da República Portuguesa. Mas, uma vez posto à vontade, começava a dizer, com o fervor de um noviço e com a maior das convicções, que os brasileiros podiam ter todos os defeitos deste mundo e do outro – e, no sentir dele, tinham mesmo, a começar pela imoralidade, emblematizada pelo semi-nudismo que reinava soberano na Praia de Copacabana, onde ele dava o seu passeio (“footing”) diário (foi por essa altura que as “garotas de Ipanema” deram estatuto de cidadania ao “topless” e ao “fio dental”), e a acabar pela hipocrisia endémica –, mas que, em questão de telenovelas, ninguém no mundo se lhes comparava. E perguntava-me se eu não estava de acordo. E eu, que nem sequer tinha televisão no meu apartamento, a fim de melhor poder concentrar-me nas minhas leituras e nas minhas pesquisas, não podia fazer outra coisa senão manifestar-lhe a minha ignorância no assunto. Que tinha de experimentar – exortava-me ele. Que essas telenovelas não só eram um bom meio de entretenimento, mas também, e sobretudo, um excelente veículo de cultura. Que, de uma maneira geral, se aprendia muito sobre a história, a cultura e a vida brasileira, vendo as suas excelentes telenovelas.
         E o austero homem do monóculo, com o arroubo de um neo-convertido, fazia o mais rasgado elogio das telenovelas brasileiras, a única coisa que valia a pena ver no Brasil – acrescentava.
         Dito o que, voltava ao seu natural e convidava-me para o seu gabinete de trabalho, a fim de prosseguirmos na escrita do “Intróito” para a sua colectânea de discursos, conferências, entrevistas e improvisos sobre política, que um dia viria a sair a lume sob o título de Ao Serviço de Portugal, como se referiu atrás.
         Ditadas umas linhas para eu escrever à máquina, linhas que ele tinha escrito anteriormente à mão, durante o dia, parava e pedia-me que lhas lesse em voz alta. E eu lia e ele ouvia com a maior atenção. Feito o quê, ele achava quase sempre que era preciso suprimir esta palavra, mudar aquela ou acrescentar outra.
         Uma vez satisfeito com as alterações feitas, passávamos adiante, voltávamos a parar, fazia-se novamente a leitura em voz alta, lutava-se por vezes minutos inteiros com um vocábulo, até que se completava um parágrafo. E tal como se tinha feito com as frases que constituíam o período, fazia-se então com todo o parágrafo.
         E foi assim, lentamente, meticulosamente, que ao fim de um número considerável de sessões se chegou ao fim do “Intróito”. E o que se fez com o “Intróito” foi feito depois com os discursos, as conferências, as entrevistas e os improvisos, aperfeiçoando e penteando, com o maior cuidado, o que, na sua maior parte, já tinha sido impresso em jornais ou em revistas.
         Tendo acompanhado o General durante todo o processo da escrita desse livro, pude confirmar aquilo que já tinha observado por ocasião da sua estadia nos Estados Unidos, em missão meio pública, meio secreta, com um passaporte especial: o cuidado e a meticulosidade que ele punha em todas as palavras que escrevia e que pronunciava. Nunca vi ninguém que pusesse mais empenho no mínimo pormenor, desde a escolha da matéria até à organização do discurso; desde a preocupação com a gramática e a sintaxe até ao esmero com a pontuação.
         Como a pontuação, nalgum dos seus aspectos, é um fenómeno puramente subjectivo, mais de uma vez vi o General a recusar as minhas sugestões, nesse capítulo. E uma vez em que eu argumentei com mais vigor a favor da colocação de determinado sinal de pontuação, tive que ouvir o General Spínola dizer-me que ele, como Oficial de Cavalaria, tinha sido director da revista dessa especialidade.
         Foi por ter observado esse fenómeno, como testemunha ocular, que por mais de uma vez tive que desmentir veementemente os que diziam que quem tinha escrito o livro Portugal e o Futuro havia sido o ex-Governador do ex-Estado de Guanabara, Carlos Lacerda.
         Que fique porém bem claro que esse labor lento e meticuloso na feitura desse livro nunca impediu que o General Spínola assistisse diariamente, devocionalmente, à telenovela brasileira da noite, como se se tratasse de um autêntico ritual.            
 
                              
António Cirurgião

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

O general (Spínola) sem mangas de camisa.



         Foi num dia do mês de Abril de 1976. Estava eu no Rio de Janeiro, por ocasião de um ano sabático, quando recebo uma comunicação do "quartel-general" do nosso movimento revolucionário (MDLP ou Movimento Democrático para a Libertação de Portugal), sediado na residência do Cônsul Honorário de Portugal no Estado de Connecticut, Estados Unidos da América, anunciando, em linguagem cifrada, a chegada ao Brasil, dois dias depois, do Vice-Cônsul, Manuel Fonseca. Que estivesse alerta, que o emissário tinha coisas importantes a comunicar-me. Nada mais. Ponto final. A natureza da missão e todos os seus pormenores ser-me-iam transmitidos pessoalmente, em devido tempo. É que por mais de uma vez tínhamos sido avisados pelos serviços secretos dos Estados Unidos que havia muitos espiões, tanto no Brasil como nos Estados Unidos, a mando do Partido Comunista Português, e que era muito provável que os telefones de alguns de nós estivessem infiltrados por esses espiões.
         Esperei e, tal como me tinha sido comunicado, passados dois dias, por volta das dez da manhã, chegou ao meu apartamento, na Rua Belfort Roxo, em Copacabana, Rio de Janeiro, o Vice-Cônsul.
        Depois de perguntar se ninguém mais estava no apartamento e depois de me pedir segredo absoluto sobre o que me ia dizer, saímos para uma esplanada para tomar um café e conversar, e mais tarde fomos almoçar a um botequim ao lado. Passadas algumas horas, partimos ambos de táxi a caminho de Leblon, em direcção ao apartamento do General Spínola.
         Era pelas três da tarde quando chegámos ao seu apartamento.
      Para surpresa nossa, quem responde ao toque da campainha é o próprio General. Depois de repetirmos a senha e o santo, abre-nos a porta. Eu não podia acreditar no que estava a ver. Quando esperava encontrar uma pessoa decentemente vestida, senão fardada com o seu uniforme de general, eis que vejo um homem em calções e de tronco nu.
        Como que surpreendido, ainda antes de nos apertar a mão, o General dirigiu-se a um quarto e reapareceu, momentos depois, a acabar de apertar os botões de uma camisa, ao mesmo tempo que nos dizia, com visível embaraço, que era esse o seu hábito de trajar por casa, dado o muito calor que fazia no Rio de Janeiro (e dada a falta de ar condicionado no apartamento em que vivia, como pudemos imediatamente observar: facto que o General não referiu, em virtude do seu horror quase epidérmico a qualquer manifestação externa de auto-comiseração).
    Seguidamente, o General mandou-nos sentar, não sem antes nos apresentar a um cavalheiro de porte modesto e extremamente discreto que nesse momento se encontrava com ele no apartamento: o Dr. Luís de Oliveira Dias, que, tal como o General e outros amigos e colaboradores dele, também se encontrava exilado no Brasil. (Convém esclarecer, porém, que esses “amigos e colaboradores” eram cada vez em menor número, ao contrário do que acontecera por ocasião do seu primeiro exílio no Brasil, como também pude observar, por sinal pela primeira vez que estive com o General Spínola no Brasil. Nesse tempo vivia ele num modesto hotel de Copacabana, juntamente com alguns dos seus colaboradores. Aliás, a primeira vez que aí entrei, dei com vários desses colaboradores do General Spínola a comprar pedras semi-preciosas a um caixeiro viajante de Minas Gerais, pedras que eles venderiam em Espanha a bom preço, para, dessa forma, poderem custear as despesas do exílio a que o regime político então vigente em Portugal os forçara.)
      Depois de apresentados os cumprimentos do Professor Veiga Simão, do Dr. Seabra Veiga, do Embaixador Pedro Pinto Corte-Real e do empresário Richard Aldrich, primo de Nelson Rockfeller, ao tempo Vice-Presidente dos Estados Unidos, o Vice-Cônsul e o abaixo-assinado apressaram-se a expor ao General Spínola a natureza da sua missão. Tratava-se simplesmente de perguntar ao General se queria candidatar-se à Presidência da República Portuguesa, nas primeiras eleições oficiais, depois de aprovada a nova Constituição pela Assembleia Constituinte de 1976.
       Depois de nos ouvir com a maior atenção, o General olhou demoradamente para nós e falou-nos mais ou menos assim:
       - Olhem bem para mim. Parece-lhes que eu tenho cara de quem alguma vez poderá rebaixar-se ao ponto de jurar fidelidade a uma Constituição marxista?
       Uma vaga de silêncio embaraçoso estabeleceu-se entre nós.
    Ciente de que havíamos compreendido devidamente as suas palavras, o General limitou-se a perguntar-nos se tínhamos mais alguma coisa, de carácter oficial, para lhe comunicar.
    Sim, tínhamos: uma vez que ele não aceitava candidatar-se à Presidência da República, estaria ele disposto a apoiar a candidatura do "General" Ramalho Eanes? Tinha ele confiança no "General" Ramalho Eanes?
     Após um breve silêncio, o General, à guisa de resposta, fez este comentário, num tom de mal disfarçada amargura:
         - Eu tinha confiança absoluta no Major Carlos Fabião e no General Costa Gomes, e vejam o que me aconteceu e o que me fizeram! E dizer que eu considerava o primeiro como um filho e o segundo como um irmão.
     Ouvidas estas palavras, só nos restou, ao meu amigo Vice-Cônsul e a mim, mudar de assunto.
   Ambos tínhamos compreendido, sem grande ginástica mental, que o General Spínola havia perdido quase completamente a fé nos homens. E nem outra coisa era de esperar de quem tinha sido tantas vezes traído por homens que ele considerava como filhos e irmãos.
   E, a propósito de o General estar em calções e em tronco nu, gostaria de explicar, aos que porventura não saibam, que o Marechal Spínola sofreu grandes privações durante o segundo exílio no Brasil. É que, ao contrário do que lhe acontecera quando aí chegou pela primeira vez, logo a seguir ao 11 de Março, em que não faltou quem pensasse que em breve o General voltaria novamente para Portugal, na qualidade de Presidente da Segunda República, razão por que lhe proporcionaram acomodações decentes, que não luxuosas, na esperança de um dia se verem recompensados a cêntuplo por um, quando ele apareceu pela segunda vez no Brasil, depois de ter sido apanhado com a boca na botija pelo jornalista de Der Spiegel, esses "amigos", duvidando que ele jamais pudesse voltar a ser alguém em Portugal, politicamente falando, não só nada lhe proporcionaram, como começaram a mandar-lhe contas a casa. E foi assim que o Marechal Spínola se viu obrigado a viver num humilde apartamento no Leblon e a alimentar-se, como ele disfarçava, por questão de brio, do que ele chamava rancho, à maneira da tropa: o modestíssimo prato do dia levado de um botequim ao lado do apartamento, num vulgaríssimo prato de alumínio.
   E quando, meses mais tarde, se mudou para um apartamento um pouco mais amplo e decente no Leme, almas boas e caridosas (poucas) foram-lhe mobilando o apartamento, levando-lhe hoje uma cadeira, amanhã uma lâmpada, depois uns pratos ou um aparelho de televisão, para que ele pudesse ter o mínimo de conforto.
   Estive mais de uma vez em cada um desses dois apartamentos e posso garantir que o que digo é a pura verdade. Aliás, pelo que se refere ao apartamento do Leme, fui testemunha ocular, mais de uma vez, desses gestos de caridade referidos no parágrafo anterior, praticados por “amigos certos nas coisas incertas”.
   Chegou o Marechal Spínola a tomar conhecimento dessas contas que alguns dos que lhe tinham dado comida e dormida durante o primeiro exílio lhe mandaram a casa durante o segundo exílio? Sei que no princípio não, graças à amabilidade e à dedicação de um português também exilado e necessitado como ele, o Dr. Luís de Oliveira Dias. Sob o pretexto de o secretariar, esse homem bom e amigo do seu amigo ocultava do General essas contas. Terá conseguido ocultá-las até ao fim? Confesso que não sei.
   Chegou o Marechal Spínola a queixar-se dessas privações? De maneira nenhuma: sobejava-lhe orgulho, dignidade e estoicismo para o fazer.
    Benévolos leitores, um dos homens que mais contribuiu, directa ou indirectamente, para o advento da Segunda República Portuguesa sofreu muito durante o segundo exílio no Brasil, mas sofreu calado e com dignidade exemplar.
António Cirurgião

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Futebol, de Hugo Rocha.

 
 
 
 
 
− Sim, o clube paga-me o hotel e dá-me o preciso p’ra viver, decentemente. Mas prometeu-me um emprego e, afinal, até agora, nada… Por isso, não sei se aceite… − Cipião, no conchego do quarto de Fernanda, a cabeça reclinada no colo da rapariga, satisfazia a curiosidade dela, respondendo a perguntas acerca da sua vida.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Portugal sensacional.

 
 
 
 
 

Cabelos nas paredes.

 
 
 
 
Truman Capote, 1959
 
 
 
 
Cabelos nas paredes. O horror em A Sangue Frio
 
Hair on the walls is the invisible subtitle of Truman Capote’s book, In Cold Blood.
Tom Wolfe
 
 
Uma pornografia da violência?
 
O terror é sobre nós, não apenas porque são nossos os medos, mas também porque nós somos o medo, isto é, a violência primitiva e primordial da qual evoluímos, o lugar negro em que os desejos e os impulsos colidem com a consciência e o autocontrolo. Vampiros, lobisomens, zombies, psicopatas sobrenaturais, são metáforas confortáveis para falar sobre aquilo que os espelhos nos devolvem. Numa frase: os monstros somos nós.
Contudo, mesmo encontrando-se profundamente enraizada na tradição oral e sendo o horror um elemento quase omnipresente desde tempos ancestrais nas formas de expressão artística, a verdade é que a história de terror enquanto género literário só se tornou popular e ganhou verdadeira autonomia face ao folclore em finais do século XVIII. Um dos primeiros passos foi dado por Horace Walpole e o seu Castelo de Otranto, mas, a partir da daqui, o conto de terror foi-se tornando um dos géneros literários mais célebres e, mais do que isso, um dos predilectos do gosto popular. Graças a isto, e principalmente à passagem do horror dos serões góticos para as páginas das revistas populares, primeiro com os penny dreadfuls no Reino Unido e depois com as revistas pulp americanas, o cinema desde cedo abraçou o terror como um dos seus géneros de eleição. 
Curiosamente, durante as primeiras décadas do cinema de horror, graças à estilização e à herança teatral de grande parte dos actores, realizadores e, até, das próprias histórias, o terror surge mais enquanto sugestão do que enquanto prática; e a violência, nos poucos vislumbres que dela temos, é coreografada, simulada e o seu verdeiro impacto está totalmente dependente da empatia com o horror dos protagonistas. Dito de uma forma mais simples, a herança de Poe é ainda tal que o terror é principal e fundamentalmente um terror da mente e não um terror do corpo.  
A partir dos anos cinquenta a história mudou. Ao mesmo tempo que o conto de terror apodrecia com a decadência da revista Weird Tales – em redor da qual se tinham reunidos os melhores escritores de terror da primeira metade do século XX –, o advento do grande horror britânico com a Hammer e, mais ainda, a chegada da cor ao cinema trouxe em pleno a carne para a película de terror. Foi um processo natural de evolução resultante da sexualização explícita do desejo do monstro pelas suas vítimas, que já se intuía no vampiro de Bela Lugosi, por exemplo, mas que a cor e alguma cedência nos costumes tornaram explícita. Contudo, esta opção, evidente na estreia como vampiro de Christopher Lee em O Horror de Drácula, distanciava-se pouco da aura em que se movia no terror antecedente. É na segunda metade dos anos sessenta, com os filmes de Herschell Gordon Lewis, e no início dos setentas, com A Última Casa à Esquerda, de Wes Craven, que nasce o splatter e o corpo representado enquanto objecto de desejo passa agora a conviver com a sua representação enquanto objecto de violência. Importa aqui dizer que, se em alguns filmes de terror desta época – e posteriores – a tortura é repartida pelo corpo dos protagonistas, na grande maioria é a tortura das protagonistas a que é hiperbolizada. Pense-se, por exemplo, no que o póster de Two Thousand Maniacs! indicia acerca do filme.
 
 
 
 
 
 
 
Tendo atingido o estatuto de pura paródia e inconsequência durante os anos oitenta com Holocausto Canibal e com o terror de baixíssimo orçamento, o splatter regressou em força no pós-11 de setembro, agora sob a alçada de um termo tão explícito quanto a sua execução, o torture porn das sagas Hostel, Saw e The Human Centipede ou de filmes como Martyrs (2008), de Pascal Laugier, ou Anticristo (2009), de Lars Von Trier. Foi também o elemento transversal a praticamente todos os renascimentos das grandes sagas de terror dos anos setenta e oitenta, como Texas Chainsaw Massacre (2003), Casa de Cera (2005) e Pesadelo em Elm Street (2010). Mas enquanto nas suas origens o splatter é, maioritariamente, um cinema de terror alternativo e com intenções subversivas, e enquanto a violência das sagas de terror dos anos oitenta tem um elemento cómico inegável trazido pela terrível execução de alguns efeitos e por opções de morte absurdas e desaconselháveis a qualquer psicopata que pretende ser minimamente eficaz, o torture porn não só se tornou a tendência mais reconhecível no terror da primeira década do século XXI, como passou a recorrer à tortura pelo puro prazer da violência, sem qualquer outro propósito ou metáfora capaz de suportar o mais básico teste de inteligência. Esta atitude, em parte por estar mais ligada aos impulsos primitivos do terror, aproxima-se vertiginosamente de uma sexualização total do terror, na qual a tortura deixa de promover o medo para se aproximar do voyeurismo ou, pior, do prazer. Em vez de nos assustar com aquilo que somos, torna-nos exactamente naquilo de que é suposto escaparmos. E a razão que justifica que o cinema de terror actual se esteja a progressivamente a divorciar desta tendência tem muito menos a ver com a consciencialização de estarmos a carregar de erotismo a tortura, e bem mais a ver com o esvaziamento do tabu graças ao confronto constante com a violência crua e real nos meios de comunicação e nas redes sociais.
Tom Wolfe, uma das figuras do New Journalism, publicou em 1967 um artigo para a Esquire no qual observava um fenómeno relativamente semelhante a propósito da forma com as parangonas típicas do jornalismo sensacionalista, marcadas por aquilo que o autor classificou como pornografia da violência, estavam a tomar conta de algum jornalismo mais reputado. Citando Marshall McLuhan, Wolfe faz um diagnóstico que pode ser integralmente transposto quer para o cinema de terror do início do século XXI, quer para as recentes polémicas acerca das imagens de vítimas dos ataques terroristas nas capas dos jornais: as imagens e as letras têm cada vez mais dificuldade em estimular em nós uma reacção e, por isso, o seu grafismo tem-se extremado, como se a ligação entre a violência relatada e o sofrimento real das vítimas dessa violência fosse uma mera abstracção.
Wolfe dá também A Sangue Frio como exemplo dessa tendência para explorar o apelo sádico-sensacionalista das histórias. O argumento é simples, mas realça a intencionalidade da sequência em que Capote apresenta os eventos: uma história em que todo o mistério se esfumou, em que desde o início se sabe quem são os assassinos, já capturados, e em que se mantém sempre viva a promessa de algo inexplicavelmente violento e terrivelmente visual, mas guardado quase até ao último momento.
         Não questionando as conclusões de Tom Wolfe, até porque o título A Sangue Frio torna evidente uma intenção semelhante, importa talvez acrescentar algumas ideias. O que Capote fez, e que se tornou rapidamente uma imagem de marca de grande parte da literatura sobre crimes reais, foi importar uma forma de contar as histórias típica da literatura de terror, principalmente da norte-americana. A criação detalhada de ambientes de terror e paranoia, uma estratégia particularmente feliz nas mãos de Poe, procurava permitir aos leitores não só acompanhar microscopicamente o processo de enlouquecimento dos protagonistas, como, por assim dizer, senti-lo. Seja através da sequência não cronológica em que os eventos nos são apresentados – primeiro o dia do crime, depois o rescaldo, depois a formação da vontade criminosa e, por último, o corredor da morte –, seja através da forma como cada parte é construída com o objectivo de maximizar o terror que caiu sobre a cidade de Holcomb, o objectivo é manter no leitor sempre perante a mesma curiosidade: que violência?
Por outro lado, e apesar do seu lugar secundário na obra, Capote não é estranho ao terror, tendo escrito alguns contos de terror, como Miriam ou Master Misery, para além de ter sido um dos responsáveis pelo argumento de The Innocents, um dos melhores filmes de terror da década de sessenta, que adapta The Turn of the Screw de Henry James.
 
O crime que aconteceu em Holcomb
 
Face ao que atrás se disse, não deixa de ser curioso que devamos A Sangue Frio, a obra-prima de Truman Capote e um livro cuja influência na literatura do século XX é ainda hoje sobejamente menosprezada, a uma notícia que, sem grande debate, caberia na crítica ensaiada por Tom Wolfe.
Na edição de 16 de Novembro do New York Times, Capote encontrou um pequeno artigo acerca de uma abastada família de quatro pessoas – pai, mãe e um casal de filhos adolescentes – que foi encontrada morta a tiro em sua casa, em Holcomb, Kansas. Nem a identidade dos assassinos, nem os detalhes da brutal execução das vítimas, nem tão-pouco o perverso e longo planear do crime eram na altura conhecidos. Ainda assim, Truman Capote decidiu dedicar a esta história os sete anos seguintes, preparando uma detalhadíssima análise do local, do crime, das vítimas, dos criminosos e de praticamente toda a gente com alguma coisa a dizer sobre os eventos. Fê-lo quase sempre acompanhado pela amiga Harper Lee, que um ano depois dos crimes escreveria Mataram a Cotovia, o livro que lhe garantiu, por direito próprio, um lugar na grande literatura americana do século XX.
O sucesso crítico do livro foi extraordinário e o sucesso monetário ainda mais. Muito por isso, o importantíssimo debate teórico que aquele livro deveria ter motivado na sua época foi adiado. Pelo contrário, o debate foi quase sempre poluído por acusações estéreis, maioritariamente movidas por uns poucos autores de true crime, os quais, apercebendo-se do verdadeiro significado e impacto de A Sangue Frio – nomeadamente para a sua carteira –, atacaram o livro com aquilo que, um pouco mais tarde, se tornaria a crítica mais ressoante:  conteúdo ficcionado num livro de não-ficção.
Comecemos por aqui, ficção ou não-ficção é uma questão de etiquetas, um peso que, em A Sangue Frio, não deve impor-se por completo, mesmo que o seu autor, em parte, o tenha feito. A obviedade daquilo que distingue a ficção do facto não se transporta para a fronteira entre ficção e não-ficção porque esta é distinção, no fundo, é apenas uma forma de arrumar estantes nas livrarias e, mais que isso, existem muitos géneros pelo meio a povoar esse espaço entre duas categorias tão rígidas. Isto, parecendo que não, altera tudo. Ao questionarmos a ética da opção tomada por Capote em incluir eventos e situações ficcionadas no meio de uma história verídica, somos imediatamente confrontados com uma hipocrisia e um problema. A hipocrisia é simples e formula-se numa questão: se olharmos para o que hoje são os jornais, a ficção de Capote é assim tão diferente do que deixamos, acriticamente, passar por notícia? E, também, será mesmo mais grave do que isto o que Capote fez?
E, mesmo que assim não fosse, até porque o ataque à hipocrisia tem um valor crítico limitado, sobra-nos o problema: existe uma ética uniforme para a não-ficção? Faz sentido exigirmos a um livro como este a honestidade ideal de uma notícia ou de um texto académico? Não me parece que devamos responder afirmativamente a qualquer uma destas questões. Grande parte do conteúdo ficcionado serve um propósito muito específico, sendo simultaneamente um dos melhores efeitos do livro. Capote intuiu que o quádruplo homicídio da família Clutter envolve duas formas de luta entre bem e mal. Numa dessas lutas, o objectivo é a destruição desse confronto, presente na forma como, a pouco e pouco, nos vai sendo sugerida uma cidade virada contra si própria, em profundo contraste com a descrição do local que, mais ou menos, inaugura o livro. A outra luta explora ao limite o binómio, confrontando os assassinos um contra o outro, o bem contra o mal, Perry Smith contra Dick Hickock (os dois assassinos), realçando a assimetria profunda entre cada uma das partes do duo homicida. Por um lado, um pedófilo e assassino sádico, representado por Dick; por outro, Perry, facilmente irritável, mas de temperamento sensível e artístico.  É na caracterização de Perry, seja no contraste com Dick, seja na sua relação com o casal Meier, que Capote realça com alguns dos eventos cuja veracidade é posta em causa e, mesmo considerando a ficção, isso está entre os melhores momentos de prosa e é a personalidade de Perry, a forma como Capote o viu, talvez o efeito mais perene da obra. A Sangue Frio é não-ficção que abusa dos privilégios da ficção e isso não significa que as fronteiras entre facto e ficção, entre romance e história verídica, não estejam acessíveis ao leitor que por isso se interesse.
 
David Teles Pereira