quinta-feira, 23 de março de 2017

«Este Pântano Que é o Japão»

 
 
 
 







I

«Silêncio»: o título do romance de Shusaku Endo publicado em 1966 parece também constituir a sua chave de leitura. O livro conta a história de como, depois de atravessarem meio mundo, três jovens padres portugueses chegam ao Japão, em meados do século dezassete, com o propósito de investigar as recentes notícias da alegada apostasia do Pe. Cristóvão Ferreira. Eram, de facto, notícias difíceis de aceitar, na medida em que mostravam não só a derrota de um dos mais indómitos missionários no Japão, mas também da própria fé cristã e de todo o Ocidente. Importava, por isso, restabelecer o contacto com o Pe. Cristóvão Ferreira, a fim de conhecer a verdade quanto à sua sorte e prosseguir a evangelização do Japão, para maior glória de Deus.

Uma vez chegado ao Japão, o Pe. Sebastião Rodrigues, um dos três portugueses, estabelece contacto com grupos de criptocristãos, camponeses e pescadores com uma vida miserável e que em segredo conservavam ainda a nova fé. Mas corriam já os tempos da perseguição implacável movida contra o cristianismo pelos Tokugawa e Sebastião Rodrigues é rapidamente capturado.

Os seus algozes, em vez de o sujeitarem diretamente à tortura, preferem conquistá-lo pela convicção. Ao ouvir os gemidos dos cristãos japoneses, sujeitos ao suplício da fossa, faz-se presente ao Pe. Rodrigues o silêncio de Deus. E reage:

«Basta Senhor, basta! É agora o momento de quebrares o silêncio. Já não te podes calar por mais tempo. Mostra que és a justiça, a bondade, o amor por excelência. Tens que dizer alguma coisa para que o mundo saiba que existes.» (Silêncio, p. 233)

Os gemidos dos supliciados continuaram: não seria suficiente renegarem eles próprios, teriam de continuar a sofrer enquanto o Padre não renegasse. É então que Cristóvão Ferreira, o apóstata que entretanto adotara o nome de Sawano Chuan, insinua:

«Por amor deles, até Cristo teria apostatado! Mesmo que isso pudesse significar uma renúncia total àquilo que ele mesmo era…» (Silêncio, p. 235)

Finalmente vencido pelo sofrimento daqueles que ajudara a ganhar para a fé, o Padre Rodrigues acede a pisar o fumie, não deixando de sentir uma tristeza imensa e também uma dor surda pela execução daquilo que pareceria ser uma aparente formalidade.

É um rosto esmagado, quase delido que, todavia, o interpela:

«Pisa-me! Eu vim ao mundo para ser pisado pelos homens! Carreguei com a cruz para partilhar da dor que vos é comum…» (Silêncio, p. 237)

Numa peça de teatro publicada pouco depois de Silêncio, intitulada O País Dourado, o tema é novamente explorado por Shusaku Endo. A apostasia de Cristóvão Ferreira não é aí um episódio antecedente, mas o aspeto central do enredo. Igualmente confrontado com a tortura dos cristãos japoneses, o Pe. Ferreira começa também por se insurgir contra o silêncio de Deus, para depois afirmar:

«Estou há vinte e cinco anos no Japão e levou-me vinte e cinco anos a aprender isto. Estive pendurado na fossa, pisei o fumie e apostatei. Mas, Senhor, não abandonei o teu rosto. Não, em vez disso, encontrei um rosto diferente daquele que conheci no passado.» (Silêncio, p. 125)

Os factos não parecem, no entanto, suportar inteiramente esta interpretação dos atos do Pe. Cristóvão Ferreira. Já sob o nome de Sawano Chuan escreveu, em 1636, as seguintes palavras, no proémio do seu livro O Engano Exposto:

«Desde muito novo dediquei-me exclusivamente aos ensinamentos da religião Kirishitan e finalmente deixei a minha casa para me tornar um monge. E quando cresci formei no meu coração o desejo profundo de espalhar esta fé no Japão, sem que me detivesse a distância de muitas dezenas de milhares de quilómetros. Quando cheguei a este Reino do Sol durante anos a fio suportei fome e frio, trabalhos e privações, sem uma queixa: era tudo em prol de pregar esta doutrina a todas as criaturas. Escondi-me nas terras inóspitas das montanhas e das planícies; não procurei pôr a própria vida a salvo; não temi leis ou ordens; circulei entre leste e oeste. E espalhei esta doutrina.

No entanto, quando vi os costumes do Japão, quando ouvi as verdades do Confucionismo e do Budismo, apesar de não compreender senão a milésima parte do seu significado, arrependi-me do meu engano e reformei-me. E assim abandonei a religião Kirishitan e estabeleci o meu coração sobre os ensinamentos do Senhor Shaka. E já não considero serem verdadeiras as obscuridades Kirishitans. Mas apresentarei aqui uma exposição sumária das suas doutrinas, advogando a sua condenação e dando a conhecer a verdade. Que as minhas palavras sejam um aviso a todos aqueles que se viciaram numa fé perniciosa ao seguir a religião Kirishitan.» (cit. em Deus Destroyed, pp. 295-296)

Ou talvez confirmem. Em 1655 circula nos meios jesuítas de Macau a notícia de que Cristóvão Ferreira, com 74 anos e já enfermo, terá professado novamente a fé cristã. Chamado ao bugyō, termo que designa os samurais que exerciam a jurisdição no Xogunato Tokugawa, dá o seu testemunho: «É grande a minha aflição, pois pequei contra o verdadeiro Deus do céu e da terra e nada me angustia mais do que o facto de O ter abandonado por medo da morte». Após três dias na fossa, terá morrido como mártir.

Não há confirmação desta notícia. Não há também confirmação de que os conversos japoneses fossem submetidos à tortura com o propósito de levar os missionários a apostatar, o que antes se afigura ser um recurso literário de Shusaku Endo a fim de melhor expor o seu caso.

Seja como for, no final do livro, Kichijiro, o delator de Sebastião Rodrigues, uma espécie de Judas da história e também um outsider que exprime as angústias e indefinições do próprio Endo, é ouvido em confissão. Sebastião Rodrigues ousa administrar-lhe «um sacramento que só um sacerdote no legítimo exercício do seu ministério lhe podia dispensar». São assim os seus últimos pensamentos:

«Os seus companheiros iriam ataca-lo violentamente; dir-lhe-iam que era um sacrílego; porém traindo-os a eles sabia muito bem que não traíra o Senhor. Continuava a amá-lo, embora de um modo muito diferente. Tudo o que acontecera até esse momento fora necessário para chegar a esse amor.» (Silêncio, p. 261)

As suas últimas palavras no livro são também um epílogo eloquente do mesmo: «Sou agora o último sacerdote neste país. O Senhor não ficará em silêncio. Mesmo admitindo que ele se mantenha calado, toda a minha vida até hoje falará dele para todo o sempre» (Silêncio, p. 261). E, na verdade, o título do romance foi uma imposição do editor. Endo afirmou mais tarde numa entrevista: «Não escrevi um livro sobre o Silêncio de Deus; escrevi um livro sobre a Voz de Deus falando através do sofrimento e do silêncio».

 

II

Quando desembarcou no Japão, em 1549, o entusiamo de S. Francisco de Xavier pelas gentes que encontrou foi tal que levou os círculos jesuítas da Índia Portuguesa a considerar que seria essa uma terra eleita para o trabalho dos missionários, seria O País Dourado (p. 69). E, no entanto, para além do silêncio de Deus, a imagem mais persistente que Shusaku Endo nos transmite é a do Japão como um pântano onde a semente do cristianismo não conseguiria nunca medrar.

Em Silêncio, ocorre uma conversa entre o Pe. Sebastião Rodrigues, já depois de ter apostatado, e Inoue, o japonês a quem cabia a missão de perseguir os cristãos e fazê-los abandonar a sua fé. De resto, Inoue é, ele próprio, um antigo cristão, o que atribui considerável complexidade à sua personagem. No decorrer da conversa entre os dois, afirma Inoue: «O senhor foi vencido por este pântano que é o Japão». E perante a afirmação de que a apostasia teria sido encorajada pelo próprio Cristo do fumie, afirma ainda Inoue: «Vejo agora que o senhor, metido no pântano do Japão, acabou por distorcer o cristianismo sem sequer se dar conta» (Silêncio, pp. 256-257).

Em O País Dourado, o mesmo Inoue diz a Cristóvão Ferreira:

«Se bem pensarmos no assunto, não fui eu que o venci, mas este pântano chamado Japão. O pântano tem também as suas qualidades. Se se lhe entregar, acabará por se acostumar ao calor confortável do pântano. A doutrina de Cristo é como uma chama. E como uma chama pega fogo a uma pessoa. Pelo contrário, o calor tépido do Japão acabará por provocar um sono suave.» (The Golden Country, p. 127)

O Japão podia até tratar-se de «um país em que a boa semente fora lançada à terra com particular generosidade desde os tempos de Francisco Xavier» (p. 32). Mas a semente terá sido, na realidade, lançada num pântano, ou pelo menos assim pensava Cristóvão Ferreira quando afirmava a Sebastião Rodrigues: «Plante você aí um arbusto e logo verá que as raízes começam a apodrecer, as folhas a secar. Foi neste pântano que implantámos o cristianismo» (p. 207). Sem negar que milhares de japoneses receberam o batismo, Ferreira mantém a sua posição. «o Deus em que os japoneses de então acreditavam não era o nosso Deus. Eram os seus deuses. Ignorámos isso demasiado tempo e quisemos acreditar que se tinham feito cristãos» (p. 208). E continua: «os japoneses não são capazes de pensar num Deus completamente independente do homem; não conseguem conceber uma existência que transcenda a humana» (Silêncio, p. 211).

Que pântano é este, afinal? Por que razão não conseguiria medrar o cristianismo nas terras do Japão?

Para a compreensão desta imagem do Japão como um pântano parece essencial a figura de Kichijiro, o japonês que trai a sua família, pisa o fumie e vende o Pe. Rodrigues aos seus algozes, para depois se arrepender e ser, no final, ouvido em confissão. Kichijiro, um pouco como Endo, personifica as múltiplas histórias dos cristãos japoneses, indecisos entre duas culturas e levando uma vida dupla, ao viverem a fé cristã em segredo, sem renegar a herança dos seus antepassados. O pântano pode bem ser esta duplicidade, esta condição de uma fé necessariamente falhada, se vivida de forma intransigente e radical e exigindo uma rutura total com a cultura local e até, porventura, sentida, nessa medida, como guarda-avançada de outras forças porventura de ordem não estritamente espiritual.

Existia também, todavia, uma duplicidade do lado dos missionários. Isso mesmo se demonstra pelas atitudes muito diversas do Pe. Francisco Cabral, Superior da Missão do Japão entre 1570 e 1581, e do Pe. Alessandro Valignano, Visitador do Superior Geral da Companhia de Jesus, que esteve no Japão entre 1579 e 1582 e forçou o primeiro a demitir-se.

A abordagem do Pe. Cabral está bem expressa neste texto que escreveu em 1596, já enquanto Provincial de Goa:

«Se não desistirmos e acabarmos com a admissão de japoneses na Sociedade (…) isso será a razão para o colapso da Sociedade, senão mesmo da Cristandade, no Japão, e será mais tarde impossível encontrar um remédio (…) nunca encontrei nação mais dissimulada, cobiçosa, inconstante e insincera como a japonesa (…) entre os japoneses é considerado uma questão de honra e sabedoria não revelar o seu íntimo e impedir qualquer pessoa de lhe aceder. São treinados para isto desde a infância; são educados para serem inescrutáveis e falsos.» (citado em Deus Destroyed, p. 16)

O Pe. Valignano pensava de modo muito diferente. Defendia a adoção pelos jesuítas dos usos orientais em matéria de vestuário, linguagem e algumas práticas, ritos e costumes e promoveu a aprendizagem da língua japonesa pelos missionários europeus. Enquanto Cabral entendia que deviam ser os japoneses a adaptar-se aos costumes europeus, Valignano defendia o contrário.

A imagem do pântano encontra ainda ter um outro reflexo. Trata-se da representação de Cristo no fumie. Sebastião Rodrigues reflete sobre como era um rosto diferente:

«Não era o rosto do seu Cristo, tantas vezes contemplado em Portugal, em Roma, em Goa e em Macau. Não era um Cristo impregnado de majestade e de glória, ou soberbamente belo, mesmo oprimido pelo sofrimento, ou transbordando de energia, inacessível à tentação. O rosto que tivera aos pés era o de um homem apagado, macilento, sucumbido pelo cansaço.» (Silêncio, p. 242)

Tal como a imagem do silêncio, também a do pântano se encontra presente no desfecho do romance de Endo. Na última conversa entre Inoue e Sebastião Rodrigues, aquele explica a razão pela qual não será necessário continuar a perseguir os camponeses cristãos que ainda restam:

«Porque as raízes, essas já estão cortadas. Se continuassem a vir do Ocidente outros padres, como este, voltaríamos a prender os cristãos (…) Mas isso é assunto arrumado. Lançado o machado à raiz, os rebentos novos secam e as folhas morrem. A prova é que o Deus que os camponeses de Goto e Ikistuki hoje veneram em segredo já em nada se parece com o Deus cristão, tão mudado foi sendo, gradualmente.» (Silêncio, p. 258)

É depois desta conversa que Kichijiro é ouvido em confissão por Sebastião Rodrigues. Era «ao cair da noite, abriu-se um rasgão nas nuvens e o sol filtrou-se por elas com languidez» (Silêncio, p. 259). Endo chegou a admitir que o seu romance se poderia intitular O Cheiro do Brilho do Sol.

 

III

O pântano parece ser o lugar onde se desencontram duas culturas, duas religiões, talvez dois modos de ver a mesma realidade, que não conseguem superar as suas diferenças sem as negar. Dito de outro modo, um lugar onde as duas coisas que se defrontam nada têm a dizer uma à outra. O pântano é a expressão espacial desse silêncio.

Outro modo de encarar o pântano, mais ou menos na mesma linha, consiste em entendê-lo como um lugar onde dois estranhos não conseguem ver aquilo que os une através da diferença, porque para eles a unidade apenas se alcança através da identidade. Este modo de ver contraria diretamente, todavia, o significado do catolicismo, palavra cuja raiz significa a universalidade através da completude. A unidade só pode ser atingida através da diferença e nunca pela identidade. Para os missionários isso significa que o caminho não pode ser o de impor a visão do mundo dos cristãos e o de lutar para que todas as outras nações e culturas se lhe submetam.

Esta é a perspetiva que o filósofo Charles Taylor designa como a modernidade católica e é interessante aqui notar tratar-se de uma perspetiva por ele ilustrada precisamente através da figura do Pe. Matteo Ricci. Trata-se do missionário jesuíta que, por influência do Pe. Alessandro Valignano, se tornou um dos intelectuais mais influentes na corte chinesa e o autor dum dicionário português-chinês, na verdade o primeiro dicionário sino-europeu. No quarto centenário da sua morte, afirmou sobre ele o Papa Bento XVI:

«[o] Padre Ricci constitui um caso singular de feliz síntese entre o anúncio do Evangelho e o diálogo com a cultura do povo ao qual Ele é levado, um exemplo de equilíbrio entre clareza doutrinal e obra pastoral prudente. Não apenas a profunda aprendizagem da língua, mas também a assunção do estilo de vida e dos costumes das classes cultas chinesas, fruto de estudo e de exercício paciente e clarividente, fizeram com que Padre Ricci fosse aceite pelos chineses com respeito e estima, não como um estrangeiro, mas como o “Mestre do grande Ocidente”. No “Museu do Milénio” de Pequim somente duas pessoas estrangeiras são recordadas entre os grandes da história da China: Marco Polo e Padre Matteo Ricci.»

A imagem de Ricci não interessa, todavia, diretamente a Taylor como modo de compreender a relação entre o catolicismo e culturas radicalmente diferentes da ocidental, como eram, e são ainda apesar de tudo, as culturas chinesa e japonesa. Nessa abordagem do ocidente ao oriente Taylor procura antes a chave para um encontro entre os católicos do século vinte e um e a modernidade. Em vez de uma viagem segundo o espírito de Ricci ao oriente, precisamos agora de fazer uma viagem no tempo em direção à modernidade, mas naquele mesmo espírito de abertura que foi o do jesuíta. O desafio que se nos coloca é o de «um difícil discernimento, tentando ver aquilo que na cultura moderna reflete um desenvolvimento do evangelho e o que é recusa do transcendente» (A Catholic Modernity?, p. 36). As dificuldades são grandes, na medida em que é grande a tentação para afirmar a unidade através da identidade, em vez de seguir a via do reconhecimento da diferença, mas se lhe pudermos resistir poderemos talvez conseguir sair do pântano e ouvir a voz por detrás do silêncio.

 

Lisboa, Março de 2017.

 

Nota: para além das transcrições de frases das obras de Shusaku Endo, Silêncio, tradução do inglês de José David Antunes, 2.ª ed. revista, Dom Quixote, Lisboa, 2010, e The Golden Country, A Play, translated from the Japanese and with an Introduction by Francis Mathy, Peter Owen, London, 1989, muitas das palavras e ideias no texto que antecede foram retiradas dos seguintes livros: George Elison, Deus Destroyed: The Image of Christianity in Early Modern Japan, Harvard University Press, Cambridge (Massachusetts) and London, 1988; Makoto Fujimura, Silence and Beauty: Hidden Faith Born of Suffering, IVP Books, Downers Grove (Illinois), 2016; Michael Cooper, S. J., Rodrigues, O Intérprete: Um Jesuíta Português no Japão e na China do Século XVI, tradução de Tadeu Soares, Quetzal, Lisboa, 2003; Charles Taylor, A Catholic Modernity? Edited with an introduction by James L. Heft, S. M., New York, Oxford University Press. Uma leitura menos crítica da atuação do Pe. Francisco Cabral pode ser lida na obra do Pe. Sebastião Gonçalves, Primeira Parte da História dos Religiosos da Companhia de Jesus, publicada por José Wicki, S. I., III volume, Atlântida Editora, 1962, pp. 285-287 (obra escrita por volta de 1614). O discurso do Papa Bento XVI, de 29 de Maio de 2010, pode ser consultado em http://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/speeches/2010/may/documents/hf_ben-xvi_spe_20100529_matteo-ricci.html. Agradeço ainda ao Miguel Morgado a sugestão de que a imagem do pântano poderia esconder uma referência à modernidade.

 
Miguel Nogueira de Brito










quarta-feira, 22 de março de 2017

Para a história de O Tempo e o Modo.

 
 
 

 
 
 
Meu caro Clemente Rogeiro:
Pedia a sua boa atenção para o requerimento que segue. Ele se deve sobretudo à necessidade que sinto, neste especial momento que estamos a viver, de um Director seguir atentamente tudo o que se passa na revista ou no jornal que dirige e eu não tenho tempo para o fazer. Por outro lado, a minha posição neste momento em relação à vida pública portuguesa não é exactamente aquela que tinha e que é a tradicional da revista “O Tempo e o Modo” e a minha manutenção como director criava-me problemas de consciência que não quero ter,
Gostaria que no próximo número o meu nome não figurasse já pelo que lhe pedia que, na medida do possível, isto caminhasse com brevidade.
 
Creia-me, muito amigo
António Alçada Baptista
 
Colecção particular
Obrigado, Luís!
 
 
 
 

domingo, 19 de março de 2017

Le port de Lisbonne.

 
 
 
 
 
C’est un des plus beaux ports du monde; il rivalise, en dons naturels, avec celui de Constantinople et celui de Naples.
 

O Livro do Caçador.

 
 
 
 
O coração para e mais um tiro está feito, instintivamente, na direcção do vulto que nos ataca. Junto aos nossos pés abate-se um outro tigre-real com que não havíamos contado, pois, afinal, e sem que o sentíssemos, era um casal de tigres-reais que se encontrava a comer o cadáver do boi, do infeliz Babló Boto.

A Religião na URSS, por Leopold L. S. Braun.

 
 
 
 
Os comparsas do Kremlin podiam discordar em assuntos políticos, mas no que todos estavam de acordo era em atacar a religião, porque este é um ponto em que estão sempre concordes todos os membros do Partido.
 
 

O Tojo.

 
 
 
 
Arbusto vivaz, sempre verde, pode atingir 3 metros de altura. As raízes, vigorosas, muito desenvolvidas, correspondendo aproximadamente à quarta parte da planta, apresentam numeroso «cravos» bacterídeos, esbranquiçados.

sábado, 18 de março de 2017

O Nosso Lar, por Marimilia e Fernando Carlos.

 
 
 
 
 
  Todos rodearam a mesa, animadíssimos. A D. Leonilde sorriu bondosamente, levantando o olhar do grande tapete de Arraiolos em que trabalhava havia meses. Levava tempo mas, a pouco e pouco, o belo desenho característico, com os seus passarocos ingénuos e flores estilizadas, aparecia, perfeito e colorido, na linhagem grosseira.
 
 

O Sentimento Patriótico na Mulher Portuguesa, pelo Pde. Alberto Gonçalves.

 
 
 
 
 
 
Nenhuma História há donde se desprendam tantas lições de heroísmo como a nossa. Entre os muitos e maravilhosos factos que a prodigiosa História de Portugal regista em caracteres indeléveis nas suas brilhantes páginas, mercê dos quais o povo lusitano tanto se nobilitou e engrandeceu, salientam-se as acções admiráveis de abnegação e civismo cometidas pela mulher portuguesa.  

Rapariga Ideal, por Augusto Durão Alves.

 
 
 
 
 
 
 
Podes e deves amar – estavas à espera que to eu dissesse, pois não estavas? – podes e deves amar o teu noivo, se o tens, porque é necessário que ensaies desde já o teu coração naquele sentimento que há-de ser um dia a bênção e a luz do teu lar.
 

quinta-feira, 16 de março de 2017

Memórias Perdidas - 13

 
 
 

 
E cá estamos de novo com a cansativa série «Memórias Perdidas». Desta feita, Voltar a Viver, de Edgard Santos Mattos, editado pela Guimarães em 1976.
O autor escreveu estas suas memórias ao perfazer 50 anos. Uma vida que, para quem ler o livro, parece ter-se resumido – o que não é pouco – ao gozo do cosmopolitismo, patente nas mil e uma aventuras romântico-sexuais do travesso Edgard com mulheres das mais diversas nacionalidades. Mas também nos inúmeros títulos estrangeiros que o dr. Santos Mattos cita, porque os leu: literatura clássica mas também livros sobre política ou ensaios de circunstância, a propósito dos mais variados temas. Ao terminar o livro, fica-se com a sensação que o autor é enciclopédico nos campos feminino e literário, tendo de permeio uma carreira burocrática de pouco realce em instituições internacionais. Segundo parece, Marcello Caetano gostava dele, tinha apreço não pelas suas qualidades como jurista – foi um aluno mediano – mas pelos seus dotes humanos, de orador e palestrante em reuniões no estrangeiro.
Quanto ao mais, o relato de infância e juventude de um menino-família, que, devido ao divórcio dos pais, teve de mudar-se de uma moradia luxuosa para um hotel modesto. Como é evidente, narrativas da iniciação sexual com criadas e, mais tarde, com prostitutas. O estilo roça o brejeiro, quando não pior. Mas há uma tremenda autenticidade neste depoimento, nomeadamente quando Edgard Mattos refere a crueza da sentença judicial que, salomonicamente, o confiou – e à sua irmã – à guarda dos avós paternos, com a garantia de que estes iriam internar os netos em colégios de elite. «Éramos dali em diante órfãos de pais vivos». E assim lá foi o pequeno Edgard para o Colégio Vasco da Gama, considerado o melhor no seu tempo. Muitas histórias de jogos de futebol e aventuras sexuais precoces, à noite, nas camaratas. Sevícias sobre um colega efeminado, a quem chamavam Terezinha. Dali à boémia foi um passo – e a virgindade perdida num prostíbulo da Rua da Atalia, ao Bairro Alto. Depois dessa experiência, Edgard mergulhou forte e feio na vida nocturna lisboeta, sendo frequentador assíduos dos cabarets da capital. Por vezes, as noites corriam mal, como sucedeu com uma refrega que, no Clube dos Makavenkos, Edgard teve com um proxeneta. Para se resguardar de convívios interclassistas, o seu grupo decidiu criar uma tertúlia, a Academia Eufórica do Mais Um. Condição de admissão: cada novo sócio teria de pagar um almoço a todos os confrades. Como se vê, um clube exclusivo, mas não muito.     
Particularmente interessantes são as memórias do tempo da 2ª Guerra, falando o autor dos «estrategas de café» que, todas as noites, debruçados sobre mapas, à frente de uma bica ou de uma cerveja, definiam como deveria ser o avanço ou recuo das tropas do Eixo contra os Aliados, e vice-versa, numa espécie de ameno Sporting-Benfica em versão militarista só permitido pela neutralidade que o país vivia. No dia da vitória, uma coluna de manifestantes desceu o Chiado, com os «esquerdistas» (sic) a darem vivas à Rússia. No Rossio, a polícia carregou sobre a multidão, onde se encontrava o jovem Edgard, que deu um encontrão num empregado da Pastelaria Suíça e se  escapuliu a correr para a Praça da Figueira.
O pós-guerra foi um tempo eufórico, segundo nos conta Edgard, que na altura frequentava uma boîte instalada nas furnas lagostineiras da estrada do Guincho, onde uma noite assevera ter dançado com… Agatha Christie – e quem somos nós para duvidar de Edgard? Acrediatmos que conheceu bem Juan Carlos, nas pândegas que teve com o jovem príncipe, na recordação das violências cometidas por dois grupos boémios: um, o dos Mascarenhas, capitaneado pelo marquês de Fronteira; outro, ligado à forcadagem, liderado por Salvação Barreto. Dizia-se que quando entravam num dancing ou numa boîte pagavam antecipadamente uns valentes contos de réis, pois sabiam que a mobília e os adereços iriam acabar desfeitos em pedaços.
O livro tem este registo algo previsível, com o autor a confessar, comovido, o orgulho que tinha nos seus quatro filhos. «O meu casamento (…) foi um êxito quanto ao objectivo principal do matrimónio: o da procriação». Pelo meio, mais histórias de pancadrias com chulos (no Café Luso, por exemplo), que terminavam com Edgard sendo levado em braços rumo à sua casa de quinze divisões na Avenida da Liberdade (rectius, a casa era da sua avó). Mais tarde, casou – mas não assentou. Acabaria por separar-se da mãe dos seus quatro filhos, já que à época, por força da Concordata de 1940, o divórcio era proscrito. Um pormenor curiosíssimo, contado a destempo: Edgard foi colega, na Faculdade de Direito, do filho de Dino Grandi, um dos próceres do fascismo italiano que tivera a ousadia de erguer a voz contra Mussolini e, por isso, acabara exilado numa casa em Alfama. Todavia, e ao contrário do que propalavam as más-línguas, Grandi não vivia na miséria; pelo contrário, o filho fazia-se deslocar num esbelto carro de sport até à Faculdade de Direito. Além de refugiados de renome, uma arquitecta neozelandesa que teimava em usar bikini nas ocidentais praias lusitanas. Acabou por vencer a querela com variados cabos-de-mar, secundada pelo grupo banhista de Edgard, que na Praia Grande utilizava sempre e apenas, para ir ao mar, o que o autor designa por «uma trousse em vez de calção de comprimento de perna regulamentado».
Madrid, o destino seguinte. E, naturalmente, o mítico cabaré Pasapoga. «Dividindo o tempo entre burguesas e meretrizes éramos uns animais desavergonhados!». Pois eram. Depois disso, o mundo, em missões diplomáticas na Suíça e noutros lugares. O autor desfia os nomes dos seus empregados de mesa favoritos: o Hugo, do Hotel Polana, em Lourenço Marques; o Rodrigues, do Hotel Mundial, antigo serviçal de Gulbenkian; o inesquecível Baptista, do restaurante La Perle du Lac, em Genebra. A Suíça será o seu destino de eleição, pelas mais variadas razões. «Eu julgava que o meu interesse pelo strip-tease tinha desaparecido com as minhas viagens de jovem a Paris mas em Genebra, no Bataclan e por causa de uma eurasiana, tornei-me novamente interessado no espectáculo da nudez». Envolvendo-se com uma rapariga em terras helvéticas, Edgard Santos Mattos deixa cair o véu, desnudando a sua personalidade. A páginas tantas, fala do «atractivo sexual que o homem de sociedade ou o intelectual sente irresistivelmente por uma mulher de inferior condição social». Como se não bastasse, acrescenta: «todos nós conhecemos casos em que a atracção entre um homem e uma mulher se manifesta de níveis sociais diferentes se manifesta, de forma intensa, por vezes, incontrolável».
Voltar a Viver, memórias de um homem incontrolável. Publicadas em 1976, a visão do mundo de um «homem de sociedade», com pretensões intelectuais mas que não perdia o sentido das distâncias de classe, ou falta dela.
 
António Araújo
 
 
 
 

quarta-feira, 15 de março de 2017

Memórias Perdidas - 12



 
 
 
         É um livro singular. E, confesso, julgando que conhecia tudo quanto se havia escrito sobre a PIDE/DGS, ignorava por completo este Cela Sem Número, de Arnaldo Pinto. Não são memórias de longo curso, mas valem como tal. É o «diário» das 38 jornadas que o autor passou encarcerado na delegação da PIDE do Porto, entre Janeiro e Fevereiro de 1970. O mais curioso de tudo é que o livro seria publicado ainda antes do 25 de Abril – mais precisamente, em 1972, no Porto –, juntando-se à numerosa bibliografia de Arnaldo Pinto, onde avultam títulos com nomes fantásticos, tais como o ambicioso Maior que o Destino, o desesperado As Portas do Abismo, o comercialão 20 Contos por 15 Escudos, o tenebroso No Mundo das Trevas ou o sempre prático Guia Turístico do Portugal Continental. Isto para não falarmos, claro, da distopia bíblica Julgamento de Judas no Ano 3.000.
         Arnaldo Pinto esteve preso ou detido na delegação do Porto da polícia política sob a acusação, ou suspeita, de prática do crime de auxílio à emigração clandestina. Ou seja, não era, em sentido estrito, um «criminoso político», um oposicionista declarado ao regime, sendo essa, porventura, a razão pela qual estas suas memórias do cárcere não são muito conhecidas.
         Num estilo gongórico, pejado de floreados e ornamentos, Arnaldo Pinto descreve pari passu os seus dias de cela. Fá-lo com uma candura tal, digamos assim, que chega a ser desarmante – e até, por vezes, digno de sorriso. Na primeira linha do seu diário relativo a 22 de Janeiro de 1970, uma quarta-feira, escreve, do fundo dos calabouços: «Dia sem interesse prático». Depois, acumulam-se em camadas sobrepostas referências eruditas ao alcance de todos, alusões aos infernos de Dante ou às pinturas de Bosch, recordações do dia em que é preso, no local de trabalho. «Este dia 19 de Janeiro de 1970 foi, para a grande maioria das gentes deste pobre Universo, um dia igual a qualquer outra segunda-feira do ano». No Universo – e, em particular, no sistema solar – o dia não foi assim para um ser terráqueo: Arnaldo Pinto, autor de Plano Inclinado, entre outras obras. Foi esse o dia em que os agentes da PIDE/DGS o detiveram e, depois de o deterem, lhe disseram que estava preso. «A partir do momento de se ouvir a frase terrível do – “está preso” – as coisas mudam substancialmente e quase por encanto».
         Logo de seguida, perguntaram-lhe o que queria almoçar. «Escolhi, como era lógico, a coisa mais simples, um bife». Sempre inquisidor, o agente da DGS pergunta: «– Com batatas fritas?». «– Sim, pode ser», condescendeu Arnaldo. Não satisfeito, o agente avança para o sector das bebidas: «– E para beber? Vinho maduro?». Astuto, o autor-recluso optou pela cerveja. Apareceu então em cena «um empregado jovem do restaurante oficial fornecedor das refeições», ou seja, do estabelecimento comercial de restauração que, oficial ou oficiosamente, alimentava funcionários, agentes e demais pessoal maior e menor que se encontrasse na delegação portuense da Direcção Geral de Segurança. Na altura, para passar o tempo, o espírito de Arnaldo vagueia por destinos exóticos – Nova Zelândia, Tailândia, Rio De Janeiro – até aterrar de súbito na realidade dura e crua de uma cela com duas camas de ferro sobrepostas (um beliche?) e um balde. «– O balde é para as suas necessidades».
         Arnaldo Pinto passou 38 dias na prisão, onde não foi torturado e podia receber a visita da família. Podia até requisitar ao servente «o que quisesse», mais precisamente, maços de cigarros, um bloco de apontamentos, papel de carta e uma esferográfica. Arnaldo Pinto pediu tudo quanto tinha direito, incluindo um maço da marca Monserrate. Não estamos, de modo algum, perante um «caso típico» de preso da PIDE/DGS. Até por isso, este Cela Sem Número é um livro singular, que merece registo e nota nesta rubrica memórias perdidas.
 
António Araújo