sábado, 16 de dezembro de 2017

São Cristóvão pela Europa (46)

 

 
 
Igreja do Salvador e antiquário, Sevilha, 11 e12 de Março de 2016
 
Um dos atributos de São Cristóvão é-o na realidade de Cristo.
Cristo é representado frequentemente ao ombro do santo como Salvator Mundi. Isto é abençoando com a mão direita e segurando na mão esquerda um globo de cristal encimado por uma cruz. Esta representação de Cristo foi recentemente muito debatida a propósito do quadro de Leonardo da Vinci que bateu records num leilão.
 
José Liberato
 
 

Reminiscências natalícias de Soutelinho da Raia (1)

 

 
O Artur e a perspectiva de uma Consoada sem polvo
 
         Era véspera de Natal e as mulheres da casa – a minha avó Gracinda, a minha mãe Delfina e a minha irmã Aurora – andavam todas atarefadas a preparar as iguarias tradicionais, tais como as rabanadas, as filhoses, a aletria, o arroz doce, os sonhos, os bolos de bacalhau, o folar (ou a bola transmontana, como lhe chamam noutras partes de Portugal) e a ceia da Noite de Natal ou consoada. Enquanto os outros três irmãos – o Alfredo, o Fernando e eu – estávamos todos contentes e imersos no ambiente festivo da estação natalícia, o Artur, o irmão mais velho, estava amuado e triste, sentado cabisbaixo num canto do escano, perto da lareira. Minha mãe, ao reparar nessa atitude estranha e insólita do Artur, aproximou-se dele e dirigiu-se-lhe mais ou menos nestes termos:
 – Então, meu filho, é véspera de Natal, estão todos alegres e tu estás-me para aí triste como a noite. Porque estás assim?
Resposta pronta do Artur:
– Para mim, ceia de Natal sem polvo não é ceia de Natal.
(Informo, entre parêntesis, que a ceia tradicional de Natal ou consoada, na minha terra, Soutelinho da Raia, e por toda aquela zona transmontana, sobretudo a raiana, consistia em polvo cozido com batatas, grelos, cebola e ovos, ao contrário do que acontecia por todo o Portugal, que consistia em bacalhau cozido com batatas, grelos, cebola e ovos. Outrossim informo que, no ano em que isto aconteceu, praticamente ninguém na minha terra tinha conseguido comprar polvo, o qual, como todas as outras espécies de peixe, nos vinha sempre, fresco e bom, de Vigo, cidade espanhola, e era vendido legalmente junto do quartel da Guarda Fiscal, de que em tempos meu pai fora chefe, na sua qualidade de cabo. Por que razão, ao contrário do costume, se deu essa escassez de polvo nesse Natal confesso que não sei. Eu era pequeno e inocente para saber das manhas e artimanhas das pessoas grandes e eminências pardas que governavam Portugal, a começar pelos presidentes das câmaras municipais e governadores dos distritos e a acabar pelos mandarins do Terreiro do Paço e do Palácio de São Bento.)
Recordo-me, como se fosse hoje, que minha mãe, ouvidas essas palavras do seu filho mais velho, tirou o avental, agasalhou-se devidamente e calçou-se bem, e, pedindo-me a mim que me agasalhasse também e que a acompanhasse, pôs-se a caminho de Videferre, uma aldeia galega, a um quilómetro e tal da minha, Soutelinho da Raia. Aí chegados, minha mãe dirigiu-se a casa de uma família conhecida, e disse estas palavras à dona de casa e sua amiga, de cujo nome não me lembro: 
– Ó filha, por amor de Deus, vende-me ou empresta-me uns quilos de polvo, para fazer a ceia de Natal, pois o meu filho mais velho está muito triste e disse-me que para ele consoada sem polvo não é consoada. 
A boa senhora ficou tão comovida com a história, que disse à minha mãe mais ou menos estas palavras:
– O polvo nem to vendo nem to empresto: dou-to, que para isso são os amigos. É Natal e Natal é fraternidade, solidariedade e alegria.
Quando, já noite cerrada, chegámos a casa, com uns bons quilos de excelente polvo da Galiza, ao meu mano Artur como que lhe nasceu uma alma nova. A ceia da noite de Natal ou Consoada ia ser, como era da tradição, polvo cozido com batatas, grelos, cebola e ovos, tudo bem temperado com excelente azeite da Terra Quente, vinagre caseiro, feito na nossa adega, alho e colorau, além das mil e uma iguarias da praxe. 
 
 
António Cirurgião
 

 

Lisboa, secreta e misteriosa.

 









Museu da Marioneta
 

Lisboa, cidade triste e nada alegre.

 
Palacete Norte Júnior, Saldanha, janelas abertas, demolição à vista?
Imagem enviada por Paulo Ferrero, do Fórum Cidadania Lx - obrigado, Paulo!
 

Bom Natal

 
 

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Lisboa, secreta e misteriosa.

 

Bom Natal

 

Lisboa, secreta e misteriosa.

 

Lisboa, secreta e misteriosa.

 

Lisboa, secreta e misteriosa.

 

Lisboa, secreta e misteriosa.

 

Moira Orfei, todo um programa.




 
Agora, por causa do vendaval do assédio planetário, muita gente recordou a célebre imagem de Ruth Orkin da rapariga supostamente assobiada nas ruas de Florença. Nas páginas do Expresso, com o brilho de sempre, Jorge Calado, aqui.  E também o Malomil se apresentou à liça, com José Barreto em grande estilo, aqui, e, no patamar dos remendados, o autor destas descosidas linhas, aqui.
A propósito da imagem da Orkin é habitual convocar-se outra fotografia, menos famosa mas também importante. Aliás, já referida por José Barreto. É da autoria de Mario De Basi, foi tirada em Milão em 1954, chama-se «Gli italiani si voltano» e pode ser comprada uma cópia aqui, 1.300 euros.
 
 
A retratada de costas é, ou foi, uma actriz e artista de circo italiana, de seu nome Moira Orfei, de apelido artístico Miranda Orfei, que nasceu em 1931 em Codroipo e morreu em Bréscia no passado dia 15 de Novembro de 2015 (necrologia do La Stampa, aqui). Não vale a pena falar muito dela, pois quem quiser, puder e estiver interessado pode ir à fonte onde eu ia, a Wikipedia italiana e a flamejante homepage oficial da moça Moira e seu Circo, que merece muito ser mostrada em fotografias de quando era viva, vejam

 






Há também outra fotografia que aparece muito em qualquer motor de busca, e que é esta:
 

 



Tentei saber mais sobre a imagem, indo à Internet, claro está, mas houve uma banda musical chamada Rollins Band que usou a foto para a capa de um disco e, no que é mal, só aparece mas é a capa do disco. Isto levar-nos-ia a uma profunda divagação sobre como certas coisas da Net podem acabar por sufocar ou soterrar a informação de que precisamos, e até que ponto é possível estragar a informação por excesso de referências. Se os Rolling Stones (ou Ana Malhoa), por exemplo, decidirem fazer uma capa com os Painéis de São Vicente, nunca mais a gente encontrará na Internet uma informação de jeito sobre o enigmático quadrinho, exposto a Arte Antiga.






Falando de arte mais moderna, uma nota final para informar o público que a fotografia clássica de Rutrh Orekin foi recriada em Nápoles numa campanha publicitária da Dolce e Gabanna, supra – o que bem justificaria, muito mais do que a imagem de Orkin, provavelmente encenada, a uma discussão sobre publicidade, marketing e outras coisas em que o corpo, geralmente fêmea, se manifesta a público, sedutor e enleante. Bom Natal, que é tempo dele. Já agora, contemplai esta foto e procurai por ela, com Vespa: