sexta-feira, 27 de abril de 2018

Notas sobre A Grande Onda - 55

 



 

         55.
 
         A visita de Ramalho Ortigão (1836-1915) à Exposição Universal de Paris, em 1878, objecto de um livro recente (cf. Ramalho Ortigão, Paris. Exposição Universal, 1878-1879, pref. de Maria João Lello Ortigão de Oliveira, s.l., Feitoria dos Livros, s.d.) contribuiu decerto para a propagação do «japonismo» em Portugal, do mesmo passo que o seu escrito confirma o fascínio dos impressionistas franceses pela arte do Japão, objecto da exposição Japonismes/Impressionismes, actualmente patente no Musée des impressionismes de Giverny.
 

Théodore Duret, pintado por Édouard Manet, 1868
Paris, Musée du Petit Palais
 
 
         Ramalho Ortigão baseia-se, em larga medida, nos textos de Théodore Duret (1838-1927), uma personalidade marcante na difusão do japonisme e da obra de Hokusai, como se referiu em Notas sobre A Grande Onda – 27.
 
         Escreve o autor de As Farpas:
 
         «[Os impressionistas] pintam do natural e pintam exactamente, precisamente, rigorosamente, aquilo que vêem.
 
         Dizem-se discípulos da escola japonesa. Que influência pode ter a arte do Japão na pintura francesa? É o que o Sr. Duret nos explica do modo seguinte:
 
         Olhando-se com alguma atenção para as estampas japonesas, nas quais se ostentam, ao lado uns dos outros, os tons mais agudos e opostos, reconheceu-se que havia, para reproduzir certos efeitos da natureza, que até então se tinham posto de parte, ou por negligência ou por impossibilidade de os traduzir, processos novos, que seria útil experimentar. Porque essas figuras japonesas, em  que muitos não querem ver senão salpicos de tinta, são, pelo contrário, impressões da natureza, de uma fidelidade completa. Interroguem-se aqueles que foram ao Japão.
 
         Pela minha parte, diz o Sr. Duret, sucede-me, a cada instante, encontrar nos leques e nos álbuns a sensação exacta das cenas e paisagens que vi no Japão. Olho para um álbum japonês e digo: sim, efectivamente é assim que me apareceu o Japão; é efectivamente assim, sob a sua atmosfera luminosa e transparente, que o mar se espraia, azul e corado; são essas as estradas e os campos orlados dos belos cedros, cujos ramos tomam toda a espécie de formas angulosas e extravagantes, é esse o Fudji-Yama, o mais esguio dos vulcões; são essas as massas dos bambus que cobrem as colinas; é esse o povo pitoresco e grazina das cidades e das aldeias japonesas. A arte do Japão reproduzira os aspectos particulares da natureza, por meio de processos de colorido arrojado e novos; não podia portanto deixar de ferir a atenção dos artistas investigadores e foi isso que influenciou energicamente os impressionistas.»
   
 
 
 

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